Neste artigo
- Escopo real de um projeto de usina solar fotovoltaica em solo
- Normas técnicas que regem fundações e estrutura metálica da usina
- Investigação geotécnica e dados de entrada conforme NBR 6122
- Ações de vento conforme a NBR 6123: o fator dominante
- Cargas permanentes, ações variáveis e efeitos de temperatura
- Tipos de fundação para mesas fixas e trackers
- Checklist de verificação do memorial de cálculo
Resumo rápido
- O vento, calculado pela NBR 6123, costuma ser a ação dominante nas estruturas FV de solo e governa o dimensionamento de estacas, chumbadores e ligações por sucção, não apenas por compressão.
- A escolha do tipo de fundação (estaca cravada, hélice, bloco ou sapata) depende do relatório geotécnico conforme NBR 6122, não da potência instalada da usina.
- O memorial de cálculo precisa registrar velocidade básica do vento, categoria de rugosidade, fator topográfico, geometria das mesas e dados do relatório de sondagem (NBR 6484) para ser auditável.
Escopo real de um projeto de usina solar fotovoltaica em solo
Um projeto de usina solar fotovoltaica em solo não se resume a posicionar mesas e calcular a quantidade de estacas por string. Trata-se de uma estrutura esbelta, de grande área exposta e baixa massa relativa, submetida a vento, peso próprio, ações de montagem e manutenção, variações térmicas diferenciais e efeitos geotécnicos do terreno onde será implantada.
Essa combinação gera um comportamento estrutural próprio, diferente de galpões e coberturas convencionais. A relação entre área de módulo e massa do conjunto é alta, o que faz da sucção de vento, e não da compressão por peso próprio, a ação crítica em boa parte dos elementos. Definir fundação por tabela padronizada ou por regra de potência instalada (kWp por estaca) é prática tecnicamente inadequada: cada usina tem perfil geotécnico, geometria de mesa e exposição ao vento distintos.
Normas técnicas que regem fundações e estrutura metálica da usina
O projeto estrutural de uma usina FV de solo não é coberto por uma única norma. Ele articula um conjunto de documentos normativos, cada um responsável por uma camada do dimensionamento:
- NBR 6122: investigação geotécnica, escolha do tipo de fundação, capacidade de carga, recalques admissíveis e critérios de execução dos elementos de fundação.
- NBR 6123: velocidade básica e característica do vento, pressão dinâmica, coeficientes de forma, rugosidade e fator topográfico.
- NBR 8800: dimensionamento de perfis laminados ou soldados, barras, ligações parafusadas e soldadas em aço estrutural.
- NBR 14762: perfis formados a frio, aplicável a terças, longarinas e trilhos de suporte dos módulos.
- NBR 8681: combinações de ações e estados-limites, incluindo ações especiais como granizo quando relevante ao local.
- NBR 6118 e NBR 14931: dimensionamento e execução de blocos, sapatas, pedestais e vigas de equilíbrio em concreto armado.
- NBR 6484: execução e interpretação de sondagens SPT, base do relatório geotécnico.
- NBR 11682: estabilidade de encostas, obrigatória em terrenos inclinados, com corte e aterro.
Normas elétricas como a NBR 5410, a NBR 14039 e a série NBR 16690 tratam de aterramento, encaminhamento de cabos e instalações fotovoltaicas, mas não substituem a verificação estrutural das mesas e fundações. É comum ver projetos elétricos completos sem qualquer memorial de vento ou geotecnia associado, o que configura lacuna técnica relevante em auditorias e due diligence de financiamento.
Investigação geotécnica e dados de entrada conforme NBR 6122
A NBR 6122 exige que o tipo de fundação seja definido a partir de investigação geotécnica representativa da área, não de um único furo isolado. Em usinas de grande extensão, com dezenas de hectares, é comum adotar malha de sondagens SPT (NBR 6484) espaçadas conforme a variabilidade identificada em campo, complementadas por ensaios de resistência à penetração (torque) para estacas metálicas cravadas, já que o SPT sozinho nem sempre reproduz com precisão o comportamento de cravação.
O memorial de cálculo deve registrar, no mínimo, os seguintes dados de entrada:
- Localização, coordenadas e cota do empreendimento
- Velocidade básica do vento (V0) conforme mapa de isopletas da NBR 6123
- Categoria de rugosidade do terreno e fator topográfico (S1)
- Perfil geotécnico por sondagem SPT, com NSPT por camada
- Nível d'água, condições de drenagem e risco de erosão superficial
- Dimensões, inclinação e espaçamento entre mesas (table pitch)
- Altura da borda inferior e superior dos módulos em relação ao solo
- Configuração de mesa fixa ou tracker de eixo horizontal
- Classe de agressividade ambiental e vida útil de projeto
Sem esses dados consolidados, qualquer dimensionamento de estaca é, na prática, uma estimativa não verificável. Recalques diferenciais entre fileiras, por exemplo, afetam diretamente o alinhamento dos trackers e podem gerar esforços adicionais não previstos no cálculo original das correntes de acionamento.
Ações de vento conforme a NBR 6123: o fator dominante
A NBR 6123 converte a velocidade básica (V0) em velocidade característica (Vk) por meio dos fatores S1 (topográfico), S2 (rugosidade, dimensões e altura) e S3 (fator estatístico). A pressão dinâmica resultante é aplicada sobre a geometria real das mesas, com coeficientes de pressão e forma específicos para placas inclinadas isoladas ou em fileiras, o que torna inadequado adotar um valor único de pressão por metro quadrado para toda a usina.

O cálculo deve considerar, no mínimo, vento incidente pela frente e por trás das mesas, ângulos oblíquos relevantes, efeitos de borda e canto do campo solar (as fileiras externas recebem carregamento maior que as internas, por efeito de blindagem aerodinâmica), interferência entre fileiras consecutivas e as condições de montagem, quando as mesas ainda não compõem o conjunto final e estão mais vulneráveis a tombamento.
Para trackers, a análise ganha uma camada adicional: o ângulo de stow (posição de segurança) e os limites de rotação definidos pelo fabricante alteram diretamente os coeficientes aerodinâmicos aplicáveis, e rajadas podem induzir efeitos dinâmicos (galloping) em estruturas mais esbeltas, o que justifica avaliação específica de fadiga nos elementos de fixação.
O vento costuma ser a ação dominante em estruturas fotovoltaicas de solo, superando em muitos casos o peso próprio como esforço de dimensionamento das fundações.
— Literatura técnica setorial sobre estruturas FV conforme NBR 6123
Cargas permanentes, ações variáveis e efeitos de temperatura
As cargas permanentes somam módulos, perfis, trilhos, parafusos e grampos, cabos e eletrocalhas, caixas de junção e eventuais equipamentos apoiados diretamente na estrutura, como string boxes. Esse valor costuma ser baixo frente à área exposta ao vento, o que reforça por que a verificação de arrancamento é tão relevante quanto a de compressão.
As ações variáveis incluem carga de trabalhador em operações de manutenção, ferramentas e equipamentos temporários, esforços de montagem e içamento, acumulação eventual de água, sujeira ou granizo (quando aplicável conforme NBR 8681) e impactos localizados durante limpeza dos módulos. Em trackers, há ainda esforços cíclicos decorrentes da própria operação de rastreamento solar, que devem ser considerados em fadiga nos pontos de fixação.
Grandes fileiras contínuas desenvolvem esforços relevantes por dilatação e retração térmica, especialmente quando combinam materiais com coeficientes de dilatação diferentes, como alumínio e aço galvanizado. O projeto deve prever juntas de dilatação ou pontos de deslizamento, furos oblongos com tolerância definida, e compatibilidade entre os coeficientes de dilatação dos elementos em contato, evitando restrições indevidas que gerem tensões parasitas não previstas no modelo estrutural.
Tipos de fundação para mesas fixas e trackers
A escolha entre estaca metálica cravada, hélice contínua, estaca pré-moldada de concreto, bloco ou sapata deve decorrer do relatório geotécnico (NBR 6122), não de padrão comercial replicado de outra usina. Solos com NSPT baixo em superfície e camadas resistentes em profundidade favorecem cravação direta; solos com matacões, rocha rasa ou alta variabilidade lateral costumam inviabilizar cravação pura e exigir perfuração prévia, hélice contínua ou fundação rasa com lastro.

Estacas metálicas cravadas
São a solução mais empregada em usinas de grande porte pela produtividade e baixa movimentação de solo. Exigem verificação específica para compressão, tração e arrancamento (geralmente a condição crítica por sucção de vento), flexão composta pela excentricidade da mesa e cisalhamento na interface estaca-perfil de fixação. O torque de cravação é frequentemente correlacionado à capacidade de carga como controle de qualidade em campo, complementando o relatório de sondagem.
Fundações rasas e blocos de concreto
Aplicáveis onde a cravação é inviável ou o NA é elevado. Dimensionadas conforme NBR 6118 e executadas conforme NBR 14931, com armadura especificada pela NBR 7480. Nesses casos, a estabilidade ao tombamento e ao arrancamento depende do peso próprio do bloco e da resistência passiva do solo, exigindo atenção redobrada ao fator de segurança contra sucção de vento, já que não há a contribuição do atrito lateral típico da estaca cravada.
Checklist de verificação do memorial de cálculo
Antes de liberar o projeto estrutural de uma usina FV em solo para execução, confira se o memorial contempla:
- Relatório geotécnico com sondagens SPT (NBR 6484) representativas da área e ensaios de torque, quando aplicável
- Memorial de vento conforme NBR 6123 com V0, S1, S2, S3 e coeficientes aerodinâmicos por geometria de mesa
- Verificação de tração e arrancamento das fundações, não apenas compressão
- Combinações de ações conforme NBR 8681, incluindo condição de montagem
- Dimensionamento dos perfis conforme NBR 8800 ou NBR 14762, conforme o tipo de perfil
- Verificação de deslocamentos admissíveis dos módulos sob vento e temperatura
- Detalhamento de juntas de dilatação e furos oblongos nas fileiras longas
- Análise de estabilidade de encostas (NBR 11682) em terrenos inclinados ou com corte/aterro
- Compatibilização com o projeto elétrico quanto a cargas de cabos, caixas e eletrocalhas apoiadas na estrutura
Esse roteiro não substitui a análise caso a caso, mas evita o erro mais comum observado em auditoria de usinas já construídas: fundações dimensionadas por regra prática de kWp por estaca, sem lastro em sondagem e sem verificação formal de sucção de vento.
Perguntas frequentes
O vento sempre é a ação crítica no dimensionamento de usinas solares em solo?
Na maior parte dos casos sim, especialmente para arrancamento de estacas e chumbadores. Mas isso deve ser confirmado por cálculo conforme NBR 6123 e não assumido por padrão, já que a geometria da mesa, a altura ao solo e a rugosidade local alteram significativamente a pressão dinâmica aplicada.
É possível usar a mesma fundação padronizada em toda a usina?
Somente se o relatório geotécnico (NBR 6122) mostrar perfil de solo homogêneo em toda a área. Em usinas extensas é comum haver variação de NSPT e nível d'água que exige mais de uma solução de fundação na mesma planta.
Qual a diferença prática entre dimensionar mesa fixa e tracker?
O tracker introduz ângulo de stow, esforços cíclicos de rastreamento e maior sensibilidade a efeitos dinâmicos de vento (galloping), exigindo verificação de fadiga nas fixações que normalmente não é necessária em mesas fixas.
A NBR 6122 e a NBR 6123 são suficientes para liberar a execução?
Não isoladamente. Elas definem geotecnia e vento, mas o projeto completo também depende da NBR 8800 ou NBR 14762 para a estrutura metálica, da NBR 6118 para elementos de concreto e da NBR 8681 para combinações de ações.
Fontes e referências
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
Precisa de projeto estrutural de usina solar fotovoltaica em solo com memorial conforme NBR 6122 e NBR 6123? Fale com a MTA Engenharia.
Resposta técnica e ágil, com ART, sem compromisso. Serviço relacionado: Estruturas para Usinas Fotovoltaicas.




