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Fixação de Módulos Fotovoltaicos: Como Dimensionar Chumbadores e Grampos Contra o Arrancamento pelo Vento

Eng. Marcelo Ximenez8 min de leitura

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Fixação de Módulos Fotovoltaicos: Como Dimensionar Chumbadores e Grampos Contra o Arrancamento pelo Vento

Resumo rápido

  • A sucção do vento, não o peso próprio, costuma governar o dimensionamento da fixação de módulos fotovoltaicos.
  • A resistência da ligação é definida pelo menor valor entre todos os mecanismos de ruptura da cadeia, do grampo ao substrato.
  • Zonas de borda, canto e cumeeira da cobertura exigem reação de projeto maior que a região central, conforme a NBR 6123:2023.

Fixação de módulos fotovoltaicos é ligação estrutural, não detalhe de montagem

A fixação de módulos fotovoltaicos precisa ser tratada como uma ligação estrutural completa, com cadeia de transferência de esforços definida do painel até a fundação. O vento atua sobre a face do módulo, gera sucção (ou, em menor frequência, pressão positiva), essa força passa pelos grampos e perfis (trilhos ou rails), chega aos chumbadores ou parafusos de fixação e, por fim, é absorvida pela cobertura, pela laje ou pela fundação. Cada elo dessa cadeia precisa ser verificado isoladamente, com resistência de cálculo compatível com a solicitação transmitida pelo elo anterior.

Não é seguro definir o número de grampos por módulo, ou por metro quadrado de arranjo, apenas pela prática usual de obra ou pela carga-peso do conjunto. Na quase totalidade dos casos, a carga crítica da fixação fotovoltaica é a sucção do vento, não o peso próprio dos módulos e da estrutura de suporte. Projetos que dimensionam a ancoragem apenas pela carga permanente subestimam a solicitação real, às vezes em mais de uma ordem de grandeza, dependendo da velocidade básica do vento do local e da posição do módulo na cobertura.

Normas técnicas aplicáveis ao dimensionamento

O dimensionamento da fixação de módulos fotovoltaicos mobiliza um conjunto de normas brasileiras, cada uma responsável por uma etapa específica da cadeia estrutural.

  • NBR 6123:2023 (Forças devidas ao vento em edificações): velocidade característica, pressão dinâmica, coeficientes de pressão externa e interna, efeitos de borda e canto.
  • NBR 8800:2024, Versão Corrigida:2025 (estruturas de aço e mistas): dimensionamento de perfis, chapas, parafusos e ligações metálicas, incluindo chumbadores em bases de aço.
  • NBR 6118: capacidade do substrato de concreto, armaduras e regiões de ancoragem, quando a fixação se conecta a laje ou viga.
  • NBR 6120: ações permanentes e variáveis, incluindo peso próprio de módulos, suportes e eventuais lastros.
  • NBR 8681: combinações de ações e verificação nos estados-limites últimos e de serviço.
  • NR-10 e NR-35: risco elétrico e trabalho em altura durante instalação, manutenção e inspeção do sistema.
  • Regulamentos estaduais de Corpos de Bombeiros, como a NT 44/2023 (Goiás), que exigem laudo técnico estrutural e ART para instalação sobre cobertura.

As normas de produto do fabricante (módulo, grampo, trilho, conector) completam esse conjunto: definem faixa de aperto, posição permitida do grampo ao longo da moldura e resistência declarada ao arrancamento. Instalar fora dessa faixa, por exemplo apoiando o grampo fora da zona estrutural indicada no datasheet, invalida qualquer cálculo de resistência feito a montante.

Levantamento das condições de instalação

Antes de qualquer cálculo, é preciso registrar as condições reais do local, não valores padrão de catálogo. No mínimo, deve-se documentar: município e altitude, velocidade básica do vento aplicável, altura da edificação, geometria e inclinação da cobertura, tipo de cobertura (telha metálica, fibrocimento, laje impermeabilizada, madeira ou solo), posição dos módulos em relação a bordas, cantos, cumeeira e beirais, orientação e inclinação do arranjo, espaçamento entre módulos, presença de platibandas ou obstáculos, condição de exposição e rugosidade do terreno, e o estado de conservação da cobertura e da estrutura existente.

  • Município, altitude e velocidade básica do vento (V0) conforme mapa de isopletas da NBR 6123:2023
  • Altura da edificação e categoria de rugosidade do terreno
  • Tipo e estado de conservação da cobertura ou laje de apoio
  • Posição do módulo: borda, canto, cumeeira, beiral ou área central
  • Espaçamento entre módulos e existência de obstáculos ou platibandas próximas

A região periférica da cobertura é, em praticamente todos os casos, mais crítica que a área central, por causa dos maiores coeficientes de sucção local junto a bordas e cantos. Adotar uma reação única de projeto para todo o arranjo, sem segmentar as zonas conforme a NBR 6123:2023, é erro recorrente em projeto executivo e leva ao subdimensionamento exatamente onde a probabilidade de falha é maior.

Determinação da ação do vento sobre o conjunto fotovoltaico

A pressão dinâmica de referência pode ser expressa, em termos gerais, por q = 0,613 V², onde q é a pressão dinâmica em N/m² e V é a velocidade característica do vento em m/s. Esse valor básico, isoladamente, não é a ação de projeto: precisa ser combinado com os fatores S1 (topográfico), S2 (rugosidade, dimensões e altura) e S3 (estatístico), além dos coeficientes de pressão externa e interna definidos pela NBR 6123:2023 para a forma e inclinação específica do conjunto de módulos.

Para uma estimativa inicial da força normal ao plano do módulo, usa-se Fvento = p · A, em que p é a pressão (ou sucção) líquida de cálculo e A é a área tributária do painel ou grupo de painéis. Esse resultado deve ser distribuído entre os pontos de fixação de acordo com a rigidez real de módulo, grampo e trilho envolvidos, não dividido igualmente entre todos os grampos por simplificação de planilha.

A resistência de uma fixação fotovoltaica não se comprova pelo chumbador isolado: cada elo da cadeia, do grampo ao substrato, precisa resistir à mesma força característica de projeto definida pela análise de vento.

— Critério de verificação conjunta, NBR 6123:2023 e NBR 8800:2024

Mecanismos de ruptura que precisam ser verificados na cadeia

A verificação de uma fixação fotovoltaica não se resume ao chumbador. É preciso avaliar, para o mesmo nível de força de projeto, todos os modos de falha possíveis ao longo da cadeia de transferência.

Detalhe de grampo e trilho na fixação de módulo fotovoltaico sobre cobertura metálica.
Detalhe de grampo e trilho na fixação de módulo fotovoltaico sobre cobertura metálica.
  • Arrancamento do chumbador e ruptura do aço do chumbador
  • Cone de ruptura do concreto e ruptura por fendilhamento ou proximidade de borda
  • Arrancamento por aderência, em ancoragem química
  • Esmagamento ou rasgamento de chapa na base do grampo
  • Flexão da base do grampo e escorregamento do grampo sobre a moldura
  • Ruptura ou flambagem do trilho (rail)
  • Arrancamento de parafusos autorroscantes fixados em telha ou terça
  • Rasgamento da telha metálica no ponto de fixação
  • Esmagamento ou ruptura da madeira, quando a estrutura de apoio é em madeira
  • Falha da ligação entre telha, terça e estrutura principal
  • Insuficiência da própria cobertura ou da estrutura existente para a nova carga de vento

A resistência final da ligação é governada pelo menor valor entre todos esses modos de ruptura. Um chumbador M10 de alta resistência instalado numa telha fina e mal apoiada na terça não representa segurança nenhuma: o elo mais fraco da cadeia prevalece, mesmo que o restante do sistema esteja superdimensionado.

Dimensionamento de chumbadores em concreto

Para chumbadores mecânicos ou químicos embutidos em concreto, o projeto precisa informar: diâmetro, classe e resistência do aço, profundidade efetiva de embutimento, distância às bordas, espaçamento entre chumbadores, resistência característica do concreto, presença de fissuras, espessura do elemento, existência e posição de armaduras, procedimento de instalação, torque de aperto e, no caso de resina, tempo de cura compatível com a temperatura ambiente.

Instalação de chumbador químico em laje de concreto para suporte de estrutura fotovoltaica.
Instalação de chumbador químico em laje de concreto para suporte de estrutura fotovoltaica.

Em lajes impermeabilizadas, não se deve perfurar sem antes localizar armaduras, instalações embutidas e camadas de impermeabilização. A ancoragem precisa evitar redução da seção resistente da laje e não pode criar ponto de infiltração: furo mal vedado em cobertura de laje é falha recorrente que aparece meses depois, já com infiltração e corrosão da armadura próxima ao chumbador.

Fixação em telhas metálicas e estruturas de madeira

Parafusos aplicados diretamente na telha, sem transpassar até a terça, frequentemente apresentam capacidade limitada ao arrancamento. Essa resistência depende de espessura e tipo de aço da telha, diâmetro e geometria do parafuso, posição da fixação em relação à onda da telha, uso de arruela com área de apoio adequada, distância à borda, e espessura e resistência da terça que recebe o engajamento efetivo das roscas.

Em estruturas de madeira, o modo de falha predominante costuma ser esmagamento ou ruptura da fibra no ponto de fixação, influenciado por espécie, umidade da peça e direção das fibras em relação à carga. Parafuso autoperfurante bem dimensionado para o chumbador, mas instalado numa terça de madeira deteriorada ou com umidade acima do recomendado, não garante a resistência de projeto.

A cadeia completa é telha, terça e estrutura principal. Falha em qualquer um desses elos compromete o conjunto, mesmo que o chumbador e o grampo estejam corretamente dimensionados conforme catálogo do fabricante.

Checklist de dimensionamento passo a passo

A sequência recomendada de verificação segue a mesma lógica da cadeia estrutural: da ação externa até o substrato final.

  1. Levantar as condições reais de instalação: velocidade básica do vento, altura, tipo de cobertura e posição do arranjo em relação a bordas e cantos.
  2. Determinar a ação do vento conforme NBR 6123:2023, segmentando a cobertura em zonas de borda, canto, cumeeira e área central.
  3. Calcular a força característica de projeto por ponto de fixação, considerando a rigidez real de módulo, grampo e trilho.
  4. Verificar, para essa mesma força, todos os mecanismos de ruptura possíveis na cadeia (grampo, trilho, chumbador, substrato).
  5. Confirmar os limites do fabricante: faixa de aperto, posição do grampo na moldura e resistência declarada ao arrancamento.
  6. Emitir ART e, quando exigido por regulamento local de bombeiros, laudo técnico estrutural da cobertura antes da instalação.

Perguntas frequentes

Qual carga costuma governar a fixação de módulos fotovoltaicos: vento ou peso próprio?

Na grande maioria das instalações, a sucção do vento governa o dimensionamento, não o peso próprio dos módulos e da estrutura de suporte. Dimensionar apenas pela carga permanente subestima a solicitação real, principalmente nas zonas de borda e canto da cobertura.

A NBR 6123:2023 é suficiente para dimensionar toda a fixação fotovoltaica?

Não. A NBR 6123:2023 define a ação do vento, mas o dimensionamento completo também envolve a NBR 8800:2024 para ligações metálicas, a NBR 6118 quando há ancoragem em concreto, e as instruções do fabricante dos grampos e trilhos.

Por que um grupo de chumbadores pode resistir menos que a soma de cada chumbador isolado?

Quando há pequeno espaçamento ou proximidade de borda, os cones de ruptura do concreto se sobrepõem, reduzindo a capacidade conjunta do grupo em relação à soma das resistências individuais. Esse efeito precisa entrar no cálculo, junto com a interação entre tração e cisalhamento.

É necessário laudo estrutural para instalar painéis fotovoltaicos sobre cobertura existente?

Em diversos estados, sim. Regulamentos de Corpos de Bombeiros, como a NT 44/2023 em Goiás, exigem laudo técnico estrutural e ART quando o sistema fotovoltaico é instalado sobre cobertura, justamente para comprovar a capacidade da estrutura existente frente à nova carga de vento e peso.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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