Neste artigo
- Fixação de módulos fotovoltaicos é ligação estrutural, não detalhe de montagem
- Normas técnicas aplicáveis ao dimensionamento
- Levantamento das condições de instalação
- Determinação da ação do vento sobre o conjunto fotovoltaico
- Mecanismos de ruptura que precisam ser verificados na cadeia
- Dimensionamento de chumbadores em concreto
- Fixação em telhas metálicas e estruturas de madeira
- Checklist de dimensionamento passo a passo
Resumo rápido
- A sucção do vento, não o peso próprio, costuma governar o dimensionamento da fixação de módulos fotovoltaicos.
- A resistência da ligação é definida pelo menor valor entre todos os mecanismos de ruptura da cadeia, do grampo ao substrato.
- Zonas de borda, canto e cumeeira da cobertura exigem reação de projeto maior que a região central, conforme a NBR 6123:2023.
Fixação de módulos fotovoltaicos é ligação estrutural, não detalhe de montagem
A fixação de módulos fotovoltaicos precisa ser tratada como uma ligação estrutural completa, com cadeia de transferência de esforços definida do painel até a fundação. O vento atua sobre a face do módulo, gera sucção (ou, em menor frequência, pressão positiva), essa força passa pelos grampos e perfis (trilhos ou rails), chega aos chumbadores ou parafusos de fixação e, por fim, é absorvida pela cobertura, pela laje ou pela fundação. Cada elo dessa cadeia precisa ser verificado isoladamente, com resistência de cálculo compatível com a solicitação transmitida pelo elo anterior.
Não é seguro definir o número de grampos por módulo, ou por metro quadrado de arranjo, apenas pela prática usual de obra ou pela carga-peso do conjunto. Na quase totalidade dos casos, a carga crítica da fixação fotovoltaica é a sucção do vento, não o peso próprio dos módulos e da estrutura de suporte. Projetos que dimensionam a ancoragem apenas pela carga permanente subestimam a solicitação real, às vezes em mais de uma ordem de grandeza, dependendo da velocidade básica do vento do local e da posição do módulo na cobertura.
Normas técnicas aplicáveis ao dimensionamento
O dimensionamento da fixação de módulos fotovoltaicos mobiliza um conjunto de normas brasileiras, cada uma responsável por uma etapa específica da cadeia estrutural.
- NBR 6123:2023 (Forças devidas ao vento em edificações): velocidade característica, pressão dinâmica, coeficientes de pressão externa e interna, efeitos de borda e canto.
- NBR 8800:2024, Versão Corrigida:2025 (estruturas de aço e mistas): dimensionamento de perfis, chapas, parafusos e ligações metálicas, incluindo chumbadores em bases de aço.
- NBR 6118: capacidade do substrato de concreto, armaduras e regiões de ancoragem, quando a fixação se conecta a laje ou viga.
- NBR 6120: ações permanentes e variáveis, incluindo peso próprio de módulos, suportes e eventuais lastros.
- NBR 8681: combinações de ações e verificação nos estados-limites últimos e de serviço.
- NR-10 e NR-35: risco elétrico e trabalho em altura durante instalação, manutenção e inspeção do sistema.
- Regulamentos estaduais de Corpos de Bombeiros, como a NT 44/2023 (Goiás), que exigem laudo técnico estrutural e ART para instalação sobre cobertura.
As normas de produto do fabricante (módulo, grampo, trilho, conector) completam esse conjunto: definem faixa de aperto, posição permitida do grampo ao longo da moldura e resistência declarada ao arrancamento. Instalar fora dessa faixa, por exemplo apoiando o grampo fora da zona estrutural indicada no datasheet, invalida qualquer cálculo de resistência feito a montante.
Levantamento das condições de instalação
Antes de qualquer cálculo, é preciso registrar as condições reais do local, não valores padrão de catálogo. No mínimo, deve-se documentar: município e altitude, velocidade básica do vento aplicável, altura da edificação, geometria e inclinação da cobertura, tipo de cobertura (telha metálica, fibrocimento, laje impermeabilizada, madeira ou solo), posição dos módulos em relação a bordas, cantos, cumeeira e beirais, orientação e inclinação do arranjo, espaçamento entre módulos, presença de platibandas ou obstáculos, condição de exposição e rugosidade do terreno, e o estado de conservação da cobertura e da estrutura existente.
- Município, altitude e velocidade básica do vento (V0) conforme mapa de isopletas da NBR 6123:2023
- Altura da edificação e categoria de rugosidade do terreno
- Tipo e estado de conservação da cobertura ou laje de apoio
- Posição do módulo: borda, canto, cumeeira, beiral ou área central
- Espaçamento entre módulos e existência de obstáculos ou platibandas próximas
A região periférica da cobertura é, em praticamente todos os casos, mais crítica que a área central, por causa dos maiores coeficientes de sucção local junto a bordas e cantos. Adotar uma reação única de projeto para todo o arranjo, sem segmentar as zonas conforme a NBR 6123:2023, é erro recorrente em projeto executivo e leva ao subdimensionamento exatamente onde a probabilidade de falha é maior.
Determinação da ação do vento sobre o conjunto fotovoltaico
A pressão dinâmica de referência pode ser expressa, em termos gerais, por q = 0,613 V², onde q é a pressão dinâmica em N/m² e V é a velocidade característica do vento em m/s. Esse valor básico, isoladamente, não é a ação de projeto: precisa ser combinado com os fatores S1 (topográfico), S2 (rugosidade, dimensões e altura) e S3 (estatístico), além dos coeficientes de pressão externa e interna definidos pela NBR 6123:2023 para a forma e inclinação específica do conjunto de módulos.
Para uma estimativa inicial da força normal ao plano do módulo, usa-se Fvento = p · A, em que p é a pressão (ou sucção) líquida de cálculo e A é a área tributária do painel ou grupo de painéis. Esse resultado deve ser distribuído entre os pontos de fixação de acordo com a rigidez real de módulo, grampo e trilho envolvidos, não dividido igualmente entre todos os grampos por simplificação de planilha.
A resistência de uma fixação fotovoltaica não se comprova pelo chumbador isolado: cada elo da cadeia, do grampo ao substrato, precisa resistir à mesma força característica de projeto definida pela análise de vento.
— Critério de verificação conjunta, NBR 6123:2023 e NBR 8800:2024
Mecanismos de ruptura que precisam ser verificados na cadeia
A verificação de uma fixação fotovoltaica não se resume ao chumbador. É preciso avaliar, para o mesmo nível de força de projeto, todos os modos de falha possíveis ao longo da cadeia de transferência.

- Arrancamento do chumbador e ruptura do aço do chumbador
- Cone de ruptura do concreto e ruptura por fendilhamento ou proximidade de borda
- Arrancamento por aderência, em ancoragem química
- Esmagamento ou rasgamento de chapa na base do grampo
- Flexão da base do grampo e escorregamento do grampo sobre a moldura
- Ruptura ou flambagem do trilho (rail)
- Arrancamento de parafusos autorroscantes fixados em telha ou terça
- Rasgamento da telha metálica no ponto de fixação
- Esmagamento ou ruptura da madeira, quando a estrutura de apoio é em madeira
- Falha da ligação entre telha, terça e estrutura principal
- Insuficiência da própria cobertura ou da estrutura existente para a nova carga de vento
A resistência final da ligação é governada pelo menor valor entre todos esses modos de ruptura. Um chumbador M10 de alta resistência instalado numa telha fina e mal apoiada na terça não representa segurança nenhuma: o elo mais fraco da cadeia prevalece, mesmo que o restante do sistema esteja superdimensionado.
Dimensionamento de chumbadores em concreto
Para chumbadores mecânicos ou químicos embutidos em concreto, o projeto precisa informar: diâmetro, classe e resistência do aço, profundidade efetiva de embutimento, distância às bordas, espaçamento entre chumbadores, resistência característica do concreto, presença de fissuras, espessura do elemento, existência e posição de armaduras, procedimento de instalação, torque de aperto e, no caso de resina, tempo de cura compatível com a temperatura ambiente.

Em lajes impermeabilizadas, não se deve perfurar sem antes localizar armaduras, instalações embutidas e camadas de impermeabilização. A ancoragem precisa evitar redução da seção resistente da laje e não pode criar ponto de infiltração: furo mal vedado em cobertura de laje é falha recorrente que aparece meses depois, já com infiltração e corrosão da armadura próxima ao chumbador.
Fixação em telhas metálicas e estruturas de madeira
Parafusos aplicados diretamente na telha, sem transpassar até a terça, frequentemente apresentam capacidade limitada ao arrancamento. Essa resistência depende de espessura e tipo de aço da telha, diâmetro e geometria do parafuso, posição da fixação em relação à onda da telha, uso de arruela com área de apoio adequada, distância à borda, e espessura e resistência da terça que recebe o engajamento efetivo das roscas.
Em estruturas de madeira, o modo de falha predominante costuma ser esmagamento ou ruptura da fibra no ponto de fixação, influenciado por espécie, umidade da peça e direção das fibras em relação à carga. Parafuso autoperfurante bem dimensionado para o chumbador, mas instalado numa terça de madeira deteriorada ou com umidade acima do recomendado, não garante a resistência de projeto.
A cadeia completa é telha, terça e estrutura principal. Falha em qualquer um desses elos compromete o conjunto, mesmo que o chumbador e o grampo estejam corretamente dimensionados conforme catálogo do fabricante.
Checklist de dimensionamento passo a passo
A sequência recomendada de verificação segue a mesma lógica da cadeia estrutural: da ação externa até o substrato final.
- Levantar as condições reais de instalação: velocidade básica do vento, altura, tipo de cobertura e posição do arranjo em relação a bordas e cantos.
- Determinar a ação do vento conforme NBR 6123:2023, segmentando a cobertura em zonas de borda, canto, cumeeira e área central.
- Calcular a força característica de projeto por ponto de fixação, considerando a rigidez real de módulo, grampo e trilho.
- Verificar, para essa mesma força, todos os mecanismos de ruptura possíveis na cadeia (grampo, trilho, chumbador, substrato).
- Confirmar os limites do fabricante: faixa de aperto, posição do grampo na moldura e resistência declarada ao arrancamento.
- Emitir ART e, quando exigido por regulamento local de bombeiros, laudo técnico estrutural da cobertura antes da instalação.
Perguntas frequentes
Qual carga costuma governar a fixação de módulos fotovoltaicos: vento ou peso próprio?
Na grande maioria das instalações, a sucção do vento governa o dimensionamento, não o peso próprio dos módulos e da estrutura de suporte. Dimensionar apenas pela carga permanente subestima a solicitação real, principalmente nas zonas de borda e canto da cobertura.
A NBR 6123:2023 é suficiente para dimensionar toda a fixação fotovoltaica?
Não. A NBR 6123:2023 define a ação do vento, mas o dimensionamento completo também envolve a NBR 8800:2024 para ligações metálicas, a NBR 6118 quando há ancoragem em concreto, e as instruções do fabricante dos grampos e trilhos.
Por que um grupo de chumbadores pode resistir menos que a soma de cada chumbador isolado?
Quando há pequeno espaçamento ou proximidade de borda, os cones de ruptura do concreto se sobrepõem, reduzindo a capacidade conjunta do grupo em relação à soma das resistências individuais. Esse efeito precisa entrar no cálculo, junto com a interação entre tração e cisalhamento.
É necessário laudo estrutural para instalar painéis fotovoltaicos sobre cobertura existente?
Em diversos estados, sim. Regulamentos de Corpos de Bombeiros, como a NT 44/2023 em Goiás, exigem laudo técnico estrutural e ART quando o sistema fotovoltaico é instalado sobre cobertura, justamente para comprovar a capacidade da estrutura existente frente à nova carga de vento e peso.
Fontes e referências
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
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