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Colapso de Cobertura Após Incêndio: Como Avaliar Treliças, Terças e Ligações

Eng. Marcelo Ximenez8 min de leitura

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Colapso de Cobertura Após Incêndio: Como Avaliar Treliças, Terças e Ligações

Resumo rápido

  • Desabamento parcial de cobertura após incêndio deve ser tratado como risco de colapso progressivo até avaliação de engenheiro estrutural habilitado.
  • O aço perde capacidade resistente de forma expressiva acima de 400°C e o resfriamento com água de combate gera tensões residuais adicionais não previstas em projeto.
  • A reutilização de treliças, terças e ligações exige nova verificação à temperatura ambiente conforme NBR 8800 e NBR 14323, não bastando inspeção visual.

O incêndio no bairro São João e o desabamento da cobertura

Um incêndio atingiu, em 9 de outubro de 2026, uma empresa de reparos automotivos no bairro São João, em Porto Alegre (RS). As chamas destruíram três veículos e provocaram o desabamento parcial da cobertura do galpão. Não houve registro de vítimas, e a causa do sinistro permanecia em apuração, segundo o R7 Rio Grande do Sul.

Imagem ilustrativa: O Palácio do Planalto é um dos monumentos de Brasília iluminados de rosa para a campanha Outubro Rosa, de conscientização sobre a importância da detecção precoce do câncer de mama
Imagem ilustrativa: O Palácio do Planalto é um dos monumentos de Brasília iluminados de rosa para a campanha Outubro Rosa, de conscientização sobre a importância da detecção precoce do câncer de mamaFoto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil (reprodução autorizada com crédito)

Oficinas automotivas concentram materiais inflamáveis e combustíveis (solventes, óleos, pneus, plásticos), cenário regido pela NR-20, e isso costuma acelerar a propagação do fogo e elevar rapidamente a temperatura do ar sob a cobertura. O resultado típico é exatamente o observado: colapso parcial da estrutura metálica durante o combate às chamas, sem colapso total da edificação. Esse quadro deve ser tratado, do ponto de vista estrutural, como risco de colapso progressivo até que um engenheiro estrutural habilitado avalie a condição remanescente da treliça, das terças e das ligações.

Por que a estrutura metálica perde capacidade no incêndio

Treliças metálicas de cobertura, terças em perfil formado a frio e seus contraventamentos não são dimensionados, em projetos convencionais, para manter a resistência original sob temperatura de incêndio plenamente desenvolvido. O aço estrutural apresenta queda significativa de limite de escoamento e módulo de elasticidade a partir de aproximadamente 400°C. Pelos fatores de redução adotados na ABNT NBR 14323, o limite de escoamento efetivo (ky,θ) cai para algo em torno de 0,78 a 500°C, 0,47 a 600°C e pode ficar abaixo de 0,25 acima de 700°C. Em incêndios de oficina automotiva, com presença de combustíveis líquidos e materiais plásticos, essas temperaturas são alcançadas rapidamente sob o foco direto das chamas.

O resfriamento abrupto causado pela água de combate agrava o diagnóstico. O gradiente térmico entre a face aquecida e a face resfriada da barra gera tensões residuais que não existiam no projeto original e que não desaparecem com o retorno à temperatura ambiente. Por isso a ABNT NBR 14323 trata do comportamento em situação de incêndio e exige, após o resfriamento, nova verificação à temperatura ambiente conforme a ABNT NBR 8800, considerando a eventual redução permanente das propriedades mecânicas do aço.

Normas técnicas que regem a avaliação pós-incêndio

A avaliação de uma cobertura danificada por incêndio raramente se resolve com uma única norma. Dependendo da composição estrutural (aço, perfis formados a frio, tubos, eventuais elementos de concreto), aplicam-se simultaneamente:

  • ABNT NBR 8800: dimensionamento de estruturas de aço e mistas à temperatura ambiente, referência para a reverificação após o resfriamento.
  • ABNT NBR 14323: dimensionamento de estruturas de aço e mistas em situação de incêndio, fundamenta a análise dos fatores de redução de resistência e rigidez do aço aquecido.
  • ABNT NBR 14432: define o TRRF (tempo requerido de resistência ao fogo) exigido para elementos construtivos.
  • ABNT NBR 15200: projeto de estruturas de concreto em situação de incêndio, aplicável se houver pilares, vigas ou ligações em concreto na cobertura.
  • ABNT NBR 6118: verificação de estruturas de concreto à temperatura ambiente, complementar à NBR 15200 após o sinistro.
  • ABNT NBR 14762: dimensionamento de perfis formados a frio, usual em terças, geralmente os elementos mais danificados por proximidade com o telhado.
  • ABNT NBR 16239: estruturas de aço com perfis tubulares, quando presentes na treliça ou nos pilares de apoio.

As normas ABNT devem ser consultadas em suas versões oficiais vigentes; cópias de repositórios não oficiais não substituem a consulta formal ao texto normativo, especialmente em laudos que embasam decisão de demolição ou reforço.

Checklist de inspeção das treliças metálicas

A inspeção deve abranger cada barra, nó, apoio e contraventamento, comparando a geometria atual com os desenhos originais ou, na ausência deles, com levantamento cadastral feito em campo:

Nó de treliça metálica com sinais de deformação e descoloração por calor, típico de dano por incêndio.
Nó de treliça metálica com sinais de deformação e descoloração por calor, típico de dano por incêndio.
  • Flechas permanentes, flambagem local ou global e torção das barras.
  • Empenamento dos banzos superior e inferior.
  • Perda de alinhamento em montantes e diagonais.
  • Barras tracionadas frouxas ou com deformação residual.
  • Redução de espessura por oxidação acelerada pelo calor e pela água de combate.
  • Soldas com trincas, porosidade exposta ou descontinuidades.
  • Parafusos frouxos, escurecidos, deformados ou com furos alongados.
  • Perda ou ruptura de contraventamentos longitudinais e transversais.
  • Deslocamento de aparelhos de apoio, chumbadores, consoles e bases.
  • Instabilidade fora do plano, sobretudo em treliças sem contraventamento eficaz.

Uma treliça pode manter aparência relativamente íntegra e, ainda assim, ter perdido capacidade resistente por deformação residual, flambagem incipiente ou dano localizado em ligação. Liberar a estrutura apenas com base em inspeção visual é um erro recorrente que precede novos colapsos parciais.

Avaliação das terças e da cobertura remanescente

As terças costumam receber o dano mais intenso por estarem próximas às telhas e ao foco direto do fogo. Além disso, perfis formados a frio têm paredes finas e são mais sensíveis à flambagem local sob perda de rigidez térmica, o que exige atenção redobrada na leitura da ABNT NBR 14762 para a reverificação:

  • Flecha residual e perda de continuidade sobre os apoios.
  • Flambagem lateral e distorção de perfis formados a frio.
  • Deformação ou rasgamento nos furos de ligação.
  • Perda de seção por corrosão acelerada após o combate ao fogo.
  • Estado de parafusos autobrocantes, clips, soldas e cantoneiras de fixação.
  • Integridade da fixação entre terças, telhas, contraventamentos e treliças.
  • Telhas quebradas, deslocadas ou com risco iminente de queda.
  • Acúmulo de água sobre a cobertura deformada, que adiciona carga não prevista.

A remoção das telhas, quando necessária, deve seguir sequência planejada por profissional habilitado. Telhas e terças frequentemente funcionam como diafragma de travamento do conjunto; retirá-las sem critério pode reduzir ainda mais a estabilidade global da cobertura remanescente.

Ligações: o ponto crítico do diagnóstico

As ligações devem ser avaliadas separadamente, pois frequentemente governam a segurança mesmo quando as barras parecem aceitáveis à inspeção visual:

  • Soldas de fábrica e de campo, especialmente em nós de treliça.
  • Parafusos de alta resistência e parafusos comuns.
  • Chapas de ligação, enrijecedores, gusset plates e cantoneiras.
  • Chumbadores e soldas na interface entre treliça e apoio.
  • Alongamento, escorregamento ou rotação de parafusos.
  • Furos ovalizados, rasgamento, esmagamento e risco de block shear.
  • Trincas surgidas após resfriamento rápido ou movimentação da estrutura.
  • Excentricidades e mudanças no caminho de cargas em relação ao projeto original.

Após o resfriamento, a reutilização da estrutura exige nova verificação à temperatura ambiente, considerando a eventual redução das propriedades mecânicas.

— ABNT NBR 14323

A combinação de aquecimento desigual com resfriamento por água de combate gera gradientes térmicos que concentram tensão exatamente nas ligações, região com menor ductilidade residual do sistema estrutural. Esse é o motivo pelo qual muitos laudos recomendam substituição integral de nós comprometidos, em vez de reparo pontual.

Primeiras medidas de segurança e isolamento da área

Antes de qualquer avaliação técnica aprofundada, a conduta de segurança imediata reduz o risco de acidente durante o próprio reconhecimento da estrutura:

Isolamento da área afetada pelo colapso parcial da cobertura, medida inicial antes de qualquer intervenção.
Isolamento da área afetada pelo colapso parcial da cobertura, medida inicial antes de qualquer intervenção.
  1. Interditar o galpão e a área externa sob a cobertura, incluindo regiões aparentemente não danificadas.
  2. Desligar e bloquear energia elétrica, gás, combustíveis e ar comprimido.
  3. Proibir acesso sem plano de segurança, sobretudo durante chuva, vento ou movimentação de veículos.
  4. Realizar reconhecimento preliminar a partir de local protegido, sem caminhar sobre telhas ou treliças.
  5. Instalar escoramento ou estabilização apenas após avaliação de engenheiro estrutural, conforme NR-18 e NR-35, pois escoramento mal posicionado pode introduzir esforços adicionais e provocar novo colapso.
  6. Registrar fotografias, croquis, posição do fogo, deformações e condições dos apoios antes de qualquer desmontagem.

Qualquer intervenção em altura nesse cenário, incluindo inspeção, está sujeita à NR-35, e demolição ou escoramento emergencial se enquadra nas exigências da NR-18. O licenciamento, a documentação de segurança contra incêndio e eventuais exigências específicas devem ser verificados junto ao Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul e à legislação municipal aplicável ao imóvel.

Como prevenir o colapso de cobertura em oficinas e galpões

A prevenção de colapso de cobertura em instalações com risco elevado de incêndio, como oficinas automotivas, começa no projeto de proteção contra incêndio (PPCI) e no TRRF definido conforme a ABNT NBR 14432 para o uso e a altura da edificação. Compartimentação adequada entre área de reparo, estoque de combustíveis e demais setores reduz a intensidade térmica sobre a estrutura em caso de foco localizado.

O armazenamento de inflamáveis e combustíveis conforme a NR-20 limita o volume exposto ao fogo e dificulta que o incêndio atinja intensidade suficiente para elevar a temperatura da treliça acima dos 400°C que marcam a perda acentuada de resistência do aço. Pintura intumescente ou outro sistema de proteção passiva, dimensionado para o TRRF exigido, retarda o aquecimento dos perfis e ganha tempo para o combate ao fogo antes da perda de capacidade resistente.

Manutenção preventiva também importa: contraventamentos soltos, parafusos frouxos ou corrosão prévia reduzem a reserva de capacidade que a estrutura teria para resistir a um evento térmico sem colapsar. Inspeções periódicas da cobertura, independentemente de qualquer sinistro, identificam esses pontos antes que um incêndio os transforme em causa de colapso.

Depois de um incêndio controlado, mesmo sem desabamento aparente, recomenda-se inspeção técnica da cobertura antes de liberar o uso do galpão. O custo de um laudo estrutural é marginal diante do risco de um colapso de cobertura ocorrer durante a operação normal da empresa, com pessoas e veículos presentes.

Perguntas frequentes

Uma cobertura metálica que não desabou totalmente após o incêndio pode ser reutilizada sem reforço?

Somente após avaliação de engenheiro estrutural habilitado, com reverificação à temperatura ambiente conforme ABNT NBR 8800 e NBR 14323. O aço pode ter perdido capacidade resistente mesmo sem deformação visível, principalmente nas ligações.

É seguro entrar no galpão para fotografar os danos logo após o incêndio?

O reconhecimento preliminar deve ocorrer a partir de local protegido, sem caminhar sobre telhas ou treliças, e a área deve permanecer interditada, inclusive trechos aparentemente intactos, até liberação formal após avaliação técnica.

Por que as terças costumam ser os elementos mais danificados em um incêndio de cobertura?

Por ficarem mais próximas das telhas e do foco direto das chamas, e por serem geralmente perfis formados a frio de parede fina, mais sensíveis à flambagem local quando perdem rigidez com o aquecimento.

O escoramento emergencial pode ser feito pela própria equipe da empresa antes do laudo?

Não é recomendado. Escoramento mal posicionado pode introduzir esforços adicionais não previstos e provocar novo colapso parcial. A instalação deve seguir orientação de engenheiro estrutural, observando NR-18 e NR-35.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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