Neste artigo
- O que aconteceu: galpão de gado leiteiro perde parte da estrutura em Princesa (SC)
- Por que coberturas metálicas falham sob vendaval
- NBR 6123 e as ações de vento: o que a verificação técnica exige
- Primeiros cuidados após o vendaval: isolamento antes de qualquer reparo
- Checklist de inspeção visual da estrutura metálica
- Quando contratar laudo estrutural e inspeção especializada
- Prevenção: manutenção e reforço para reduzir o risco em novos vendavais
Resumo rápido
- A perda parcial da cobertura altera o caminho das cargas e pode provocar efeito progressivo em terças, contraventamentos e ligações, mesmo sem deformação visível nos pórticos principais.
- A NBR 6123 exige verificação de pressão e sucção, incluindo o efeito do aumento de pressão interna quando há abertura repentina em laterais ou cobertura.
- Ausência de deformação visível não comprova segurança: parafusos, chumbadores e contraventamentos podem ter perdido capacidade resistente sem colapso aparente.
O que aconteceu: galpão de gado leiteiro perde parte da estrutura em Princesa (SC)
Na noite de 3 de outubro, um vendaval atingiu a região de Princesa, em Santa Catarina. Segundo o Portal TRI, a Defesa Civil iniciou o levantamento dos danos no dia seguinte. Na área rural, um galpão usado para abrigar gado leiteiro teve parte da estrutura arrancada pelas rajadas de vento. O mesmo evento causou destelhamentos em imóveis urbanos e rurais e provocou avarias na rede elétrica da região. A ocorrência foi publicada em 5 de outubro.

Esse tipo de dano costuma ser tratado, à primeira vista, como um problema de reposição de telhas. Tecnicamente, um galpão danificado por vendaval é uma situação de emergência estrutural até prova em contrário. O arrancamento de parte da cobertura altera de forma brusca o esquema de cargas da edificação, e essa alteração pode se propagar para elementos que, aparentemente, não sofreram nenhum dano direto.
Por que coberturas metálicas falham sob vendaval
O vento gera, simultaneamente, pressão e sucção sobre telhas, rufos, lanternins, platibandas e fechamentos laterais. Em grande parte dos galpões de perfil formado a frio e cobertura em telha ondulada, a sucção nas zonas de borda e de canto é o esforço crítico, não a pressão direta sobre a superfície. É justamente nessas zonas que normalmente começam as falhas observadas em campo.

A ruptura raramente começa nos pórticos principais. Ela se inicia em componentes secundários: parafusos de fixação de telha, grampos, rufos ou terças. Uma vez que um trecho de telha se solta, a pressão interna da edificação aumenta de forma significativa se houver abertura lateral ou destelhamento parcial. Esse aumento de pressão interna soma-se à sucção externa já atuante na cobertura, agravando o carregamento sobre as telhas remanescentes e sobre as terças que ainda estão fixadas.
A partir daí, o problema deixa de ser local e passa a ter potencial de efeito progressivo: a falha de uma terça sobrecarrega as adjacentes, o contraventamento de cobertura perde eficiência, e o sistema de estabilização lateral do pórtico pode ficar comprometido. Em galpões rurais, como o de Princesa, esse mecanismo é agravado quando a estrutura tem menor redundância, menos contraventamentos e perfis mais esbeltos, situação comum em construções voltadas ao abrigo de animais e armazenamento, onde o dimensionamento histórico muitas vezes privilegiou custo em detrimento de reserva de capacidade.
Granizo, chuva intensa, queda de árvores e corrosão prévia em regiões de sobreposição de telhas ou em bases de pilares costumam atuar em conjunto com o vento, reduzindo a capacidade resistente de elementos que já estavam próximos do limite antes do evento.
NBR 6123 e as ações de vento: o que a verificação técnica exige
A ABNT NBR 6123 estabelece os critérios para determinação da velocidade característica, da pressão dinâmica e dos coeficientes de pressão externa e interna aplicáveis à edificação, considerando categoria de rugosidade do terreno, fator topográfico e fator estatístico. É essa norma que define as zonas de borda e de canto, onde os coeficientes de sucção são mais severos e onde historicamente se concentram as falhas de fixação de telhas e cumeeiras.
A combinação das ações de vento com as demais cargas segue a ABNT NBR 8681, enquanto as ações permanentes e variáveis que compõem essas combinações são definidas pela ABNT NBR 6120. O dimensionamento dos perfis estruturais principais (pilares, vigas, treliças) é verificado conforme a ABNT NBR 8800, e os perfis formados a frio, como terças, montantes e longarinas, seguem a ABNT NBR 14762. As telhas de aço revestido de seção ondulada têm seus requisitos estabelecidos na ABNT NBR 14514.
Quando o galpão tem elementos de madeira, aplica-se a ABNT NBR 7190; em estruturas com perfis tubulares, a ABNT NBR 16239. Requisitos de montagem, inspeção e manutenção de coberturas e fechamentos metálicos estão na ABNT NBR 16775, que deve orientar a frequência e o escopo das inspeções periódicas mesmo fora de eventos extremos.
Primeiros cuidados após o vendaval: isolamento antes de qualquer reparo
Antes de qualquer avaliação estrutural, a prioridade é a segurança imediata da área. Isso vale tanto para um galpão rural de gado leiteiro quanto para um galpão industrial urbano.
- Isolar fisicamente a área sob e ao redor da cobertura danificada.
- Desligar a energia elétrica do circuito afetado e verificar risco de cabos energizados em contato com estrutura metálica.
- Proibir o acesso sob treliças, terças ou telhas parcialmente desprendidas.
- Retirar animais, pessoas, materiais inflamáveis e cargas suspensas da zona de risco.
- Não tentar recolocar telhas, escorar elementos ou cortar peças instáveis sem projeto e sequência executiva definida.
- Verificar indícios de vazamento de gás, risco de incêndio, acúmulo de água de chuva sobre a cobertura remanescente e árvores com risco iminente de queda.
Qualquer acesso ao telhado nesta fase, inclusive para registro fotográfico detalhado, deve seguir a NR-35, com uso de linha de vida, ancoragem adequada e avaliação prévia da capacidade resistente do trecho que vai suportar o peso do inspetor. Subir numa cobertura já comprometida por vendaval sem essa análise é um risco real de colapso localizado.
Checklist de inspeção visual da estrutura metálica
A inspeção técnica inicial deve ser conduzida por profissional habilitado, com emissão de ART quando aplicável, e documentação fotográfica sistemática de cada elemento verificado.

- Levantamento geométrico: vãos, espaçamento entre pórticos, altura, inclinação da cobertura e posição das aberturas existentes e das novas aberturas provocadas pelo vento.
- Tipo, espessura nominal e sistema de fixação das telhas remanescentes.
- Perfis de pilares, vigas, treliças, terças e contraventamentos: procurar flambagem local, distorção de alma e mesa, amassamento e torção.
- Soldas: identificar fissuras ou rompimento em nós de treliça e ligações viga-pilar.
- Parafusos e chumbadores: verificar ausência, folga, arrancamento, furos ovalizados e alongamento de chumbadores na base dos pilares.
- Contraventamentos de cobertura e de fachada: checar ruptura ou desconexão.
- Condição da fundação: fissuras no concreto, recalque diferencial e desaprumo de pilares.
- Corrosão localizada em sobreposições de telha, calhas e bases metálicas, que pode ter reduzido a seção resistente antes mesmo do vendaval.
Sempre que possível, compare a geometria atual com o projeto original ou com módulos da mesma edificação que não sofreram dano. Essa comparação ajuda a identificar deslocamentos sutis que passam despercebidos numa inspeção puramente visual.
Quando contratar laudo estrutural e inspeção especializada
A ausência de deformação visível não comprova segurança. Ligações parafusadas, chumbadores e elementos de contraventamento podem ter perdido capacidade resistente sem apresentar colapso evidente, especialmente quando a falha ocorreu por fadiga do furo ou por escoamento localizado do material sem ruptura total.
O laudo estrutural é obrigatório, na prática, sempre que houver: arrancamento de qualquer trecho de cobertura ou fechamento lateral, tombamento ou deformação visível de treliças e pórticos, indícios de deslocamento de base de pilares ou fissuras em fundações, e qualquer dúvida sobre a integridade de contraventamentos. A reocupação do galpão, mesmo parcial, antes da conclusão do laudo expõe pessoas e animais a risco de colapso sob nova carga de vento, chuva acumulada ou simples peso próprio redistribuído.
A determinação dos efeitos do vento sobre uma edificação deve considerar as condições de exposição, a forma da construção e a permeabilidade das suas superfícies, incluindo situações de abertura dominante.
— ABNT NBR 6123
O escopo da inspeção e os critérios de manutenção subsequente devem seguir a ABNT NBR 16775 para o sistema de cobertura e fechamento, e a ABNT NBR 5674 para a organização do plano de manutenção e o registro formal das intervenções realizadas após o evento.
Prevenção: manutenção e reforço para reduzir o risco em novos vendavais
Grande parte dos galpões danificados por vendaval em zona rural e industrial apresentava, antes do evento, sinais que passaram despercebidos: parafusos de telha já frouxos, corrosão em sobreposições, contraventamentos afrouxados por vibração acumulada ao longo dos anos. Um plano de manutenção preventiva, estruturado conforme a ABNT NBR 5674, com inspeções periódicas da cobertura, reduz a chance de falha em componente secundário se tornar colapso progressivo.
Quando o reparo pós-vendaval envolve substituição de sistema construtivo, troca de tipo de telha, reforço de contraventamento ou alteração de fixação original, a intervenção se enquadra na ABNT NBR 16280 e exige projeto específico, não apenas substituição item a item do que foi danificado. Reforçar ligações críticas, revisar o espaçamento de fixadores de telha nas zonas de borda e canto, e verificar a capacidade de chumbadores existentes diante da velocidade característica atual da região são medidas que custam uma fração do valor de reconstrução total e reduzem de forma objetiva a vulnerabilidade da estrutura a novos eventos.
Perguntas frequentes
Posso recolocar as telhas arrancadas antes da vistoria de um engenheiro?
Não é recomendado. A reposição sem avaliação prévia pode mascarar danos em terças e contraventamentos que já perderam capacidade resistente, além de expor quem sobe no telhado a risco de colapso localizado.
Todo destelhamento parcial exige laudo estrutural?
Sim, na prática. Mesmo quando apenas telhas foram arrancadas, a mudança na pressão interna da edificação pode ter sobrecarregado terças e fixações adjacentes, que precisam ser verificadas antes da reocupação do galpão.
Quais normas orientam a verificação de um galpão danificado por vendaval?
No mínimo, a ABNT NBR 6123 para as ações de vento, a ABNT NBR 8800 para perfis principais, a ABNT NBR 14762 para perfis formados a frio, a ABNT NBR 14514 para telhas metálicas e a ABNT NBR 16775 para inspeção e manutenção da cobertura.
É seguro subir no telhado para fotografar os danos?
Só com os requisitos da NR-35 atendidos: ancoragem adequada, linha de vida e avaliação prévia de que o trecho suporta o peso do inspetor. Coberturas já comprometidas por vendaval têm capacidade resistente incerta.
Fontes e referências
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
Galpão danificado por vendaval? Solicite inspeção técnica e laudo estrutural com a MTA Engenharia antes de reocupar a área.
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