Neste artigo
- Por que galpões industriais falham em explosões de aerossóis
- Sinais que exigem interdição imediata do galpão
- Checklist de inspeção preliminar pós-sinistro
- Quando a perícia estrutural é indispensável
- Procedimento técnico recomendado, passo a passo
- Normas técnicas aplicáveis à avaliação pós-incêndio
- Como prevenir: gestão de risco em indústrias de aerossóis
Resumo rápido
- Galpão atingido por explosão ou incêndio deve ser isolado e avaliado por profissional habilitado antes de qualquer limpeza, religação elétrica ou retomada de produção.
- Deformação de pilares, treliças ou ligações, fissuras novas e cilindros aquecidos são sinais objetivos de interdição imediata.
- A perícia, com ART/RRT, é indispensável quando há vítimas, dúvida sobre a origem do evento, dano estrutural ou disputa entre seguradora, empresa e autoridades.
Uma explosão seguida de incêndio atingiu uma fábrica de aerossóis em Diadema, São Paulo, no dia 8 de outubro, deixando 13 pessoas feridas, segundo o Diário do Grande ABC. As informações disponíveis até a publicação deste texto não detalham a causa do evento nem a extensão dos danos à edificação, mas o padrão típico desse tipo de sinistro (sobrepressão interna seguida de propagação de chamas em linha de envase) costuma deixar sequelas estruturais que não são visíveis a olho nu.

O caso expõe uma pergunta técnica que vai além do atendimento de emergência: em que momento o galpão deixa de ser cena de resgate e passa a exigir interdição formal e perícia? A resposta não é discricionária. Decorre de critérios objetivos de estabilidade estrutural, de risco residual de incêndio e explosão, e de exigências normativas que recaem sobre o empregador e sobre o responsável técnico pela edificação.
Por que galpões industriais falham em explosões de aerossóis
Aerossóis embalados sob pressão usam propelentes inflamáveis, geralmente hidrocarbonetos como butano, propano e isobutano. Em caso de vazamento e ignição, forma-se uma deflagração (combustão com frente de chama subsônica) ou, em concentrações e confinamentos específicos, uma explosão de vapor com sobrepressão significativa dentro do galpão. Esse carregamento é dinâmico e impulsivo, diferente das ações estáticas e de vento previstas em projeto conforme a NBR 6123.
O resultado prático é um modo de falha que o projeto estrutural convencional não contempla: ligações parafusadas rompidas por tração dinâmica, painéis de vedação projetados a distância, e deformação permanente de terças e treliças por flexão súbita. Some-se a isso o incêndio subsequente, que eleva a temperatura do aço estrutural. Acima de aproximadamente 400°C a 500°C o aço carbono já perde parcela relevante do limite de escoamento, conforme parâmetros de resistência ao fogo tratados na NBR 14323, e perfis esbeltos expostos diretamente à chama podem atingir a temperatura crítica de colapso em poucos minutos sem proteção passiva.
Cilindros e latas de aerossol remanescentes no galpão agravam o quadro: aquecimento continuado de recipientes pressurizados pode gerar nova ruptura (mecanismo análogo ao BLEVE em escala menor), mesmo após o incêndio principal estar controlado. É por isso que a inspeção pós-sinistro não pode se limitar à checagem visual da cobertura: precisa avaliar simultaneamente a integridade estrutural e o risco químico residual.
Sinais que exigem interdição imediata do galpão
A interdição preventiva deve ser decretada sempre que houver dúvida razoável sobre a estabilidade da edificação ou sobre a eliminação do risco de reignição. Na prática, os seguintes sinais indicam que a área não pode ser liberada sem avaliação técnica prévia:

- Deslocamento, flambagem, torção ou esmagamento de pilares e vigas metálicas ou de concreto
- Treliças ou terças deformadas, ligações rompidas, parafusos cisalhados ou arrancados
- Cobertura abaulada, parcialmente desprendida ou com risco iminente de queda de telhas
- Fissuras novas em pilares, vigas, lajes, fundações ou pisos industriais
- Paredes fora de prumo e danos visíveis em contraventamentos e tirantes
- Incêndio sob a cobertura com exposição prolongada ao calor, mesmo sem colapso visível
- Portas, painéis sanduíche ou vedações leves projetados pela onda de pressão
- Cilindros, latas ou recipientes de aerossol aquecidos, estufados ou com vazamento
- Odor de gás, atmosfera potencialmente explosiva ou ventilação natural comprometida
- Sistemas elétricos, quadros de comando ou equipamentos de processo atingidos pelo fogo ou pela água de combate
Checklist de inspeção preliminar pós-sinistro
Antes de qualquer ingresso não essencial, a equipe técnica deve seguir uma sequência mínima de verificação, sem adentrar áreas de risco sem plano de segurança:
- Confirmar o afastamento de pessoas e o controle de acessos ao perímetro afetado
- Verificar, com equipe treinada, vazamentos residuais, linhas pressurizadas e fontes de ignição
- Registrar fotograficamente a posição de cilindros, equipamentos e fragmentos antes de qualquer remoção
- Avaliar à distância desaprumos, deformações, ruídos de trabalho na estrutura e fissuras aparentes
- Checar a condição de fundações, pisos industriais e elementos de contraventamento
- Inspecionar painéis elétricos, quadros de comando e sistemas de proteção contra incêndio atingidos
- Elaborar relatório preliminar de estabilidade com delimitação objetiva de áreas liberadas e interditadas
Quando a perícia estrutural é indispensável
A inspeção preliminar resolve a questão da segurança imediata. A perícia, por sua vez, estabelece causa, extensão do dano e responsabilidade técnica, e deve ser conduzida por profissional habilitado com ART ou RRT compatível com o escopo do serviço. Ela é indispensável quando há:
- Vítimas, feridos graves ou suspeita de falha de procedimento operacional
- Explosão com dano estrutural constatado ou propagação do incêndio para áreas vizinhas
- Dúvida sobre a origem do evento: falha de equipamento, vazamento, erro de manuseio ou combinação de fatores
- Necessidade de separar dano por incêndio, dano por sobrepressão e dano por impacto mecânico
- Comprometimento de fundações, instalações elétricas ou sistemas de proteção contra incêndio
- Disputa entre seguradora, empresa, trabalhadores ou vizinhos sobre extensão de prejuízos
- Definição técnica entre reparo, reforço, demolição parcial ou reconstrução
- Exigência formal de autoridade pública, Corpo de Bombeiros ou processo judicial e administrativo
Estrutura submetida a carregamento fora do previsto em projeto deve ser tratada como estrutura de capacidade desconhecida até que a perícia prove o contrário.
— Prática usual de engenharia forense em sinistros industriais
Em qualquer um desses cenários, a remoção de peças, a limpeza de resíduos, a religação elétrica antecipada ou a movimentação de cilindros antes do registro técnico pode destruir evidências essenciais à determinação da causa, inclusive em eventual investigação de autoria ou de crime, quando aplicável.
Procedimento técnico recomendado, passo a passo
A sequência abaixo organiza a resposta técnica entre o momento do sinistro e a liberação formal da edificação, sem sobrepor etapas que exigem competências distintas (bombeiros, defesa civil, perito, calculista):

- Acionar emergência, evacuar e controlar fontes de ignição no perímetro afetado
- Confirmar, com equipe autorizada, a eliminação de perigos imediatos (vazamentos, cilindros aquecidos, energia elétrica ativa, áreas quentes)
- Preservar o local: fotografar, filmar e registrar a posição de equipamentos, válvulas e fragmentos antes da remoção
- Realizar inspeção preliminar sem ingresso desnecessário, com escoramento emergencial quando indicado
- Emitir relatório de estabilidade e interdição, delimitando áreas liberadas, restritas e interditadas
- Executar a investigação detalhada: projeto estrutural, memoriais de cálculo, histórico de manutenção, inventário de inflamáveis e dados de processo
- Liberar a edificação formalmente, de forma parcial ou total, apenas após comprovação de estabilidade estrutural e de segurança contra novo incêndio ou explosão
Normas técnicas aplicáveis à avaliação pós-incêndio
A NR-20 regula a segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis, e se aplica diretamente a indústrias que armazenam ou manipulam propelentes de aerossol. Ela exige gestão de riscos, plano de resposta a emergências e revisão obrigatória desse plano após qualquer vazamento, incêndio ou explosão, o que torna a investigação pós-sinistro uma obrigação documental, não apenas uma boa prática.
A NR-23 trata da proteção contra incêndios nos ambientes de trabalho, exigindo medidas de prevenção e condições de abandono rápido e seguro, sempre em conformidade com a legislação estadual de incêndio e, quando aplicável, com normas técnicas oficiais do corpo de bombeiros local.
No campo estrutural, a NBR 8800 é a referência para verificação, reparo ou reforço de estruturas de aço e mistas de aço e concreto, servindo de base para o calculista decidir entre substituição de elementos e reforço localizado. A análise de dano térmico deve considerar ainda os parâmetros de resistência ao fogo da NBR 14323, que trata do dimensionamento de estruturas de aço em situação de incêndio e orienta a estimativa de perda de capacidade resistente em função da temperatura atingida pelos perfis.
Como prevenir: gestão de risco em indústrias de aerossóis
A prevenção eficaz combina layout de armazenamento, detecção precoce e resposta treinada. Pilhas de aerossóis devem respeitar afastamento de fontes de calor e de equipamentos elétricos não classificados para área de risco, com ventilação adequada para dissipar vapores de propelente antes que atinjam o limite inferior de explosividade.
Detecção de gás, compartimentação corta-fogo entre a linha de envase e o depósito, e sistemas de combate automático dimensionados para líquidos e gases inflamáveis reduzem a probabilidade de que um princípio de incêndio evolua para explosão generalizada. O plano de emergência exigido pela NR-20 precisa ser testado periodicamente, não apenas arquivado, e revisado a cada evento relevante registrado na planta.
Do ponto de vista estrutural, vale avaliar previamente a resistência ao fogo dos elementos de sustentação da cobertura sobre áreas de maior carga de incêndio, prever rotas de alívio de pressão em painéis de vedação leves e manter documentação técnica atualizada (projeto, memorial de cálculo, histórico de inspeções) para acelerar qualquer perícia futura.
Perguntas frequentes
Quem pode determinar a interdição de um galpão após explosão ou incêndio?
A interdição formal envolve Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, autoridade trabalhista, autoridade municipal e o responsável técnico pela edificação, conforme a extensão do evento e a legislação estadual aplicável. O empregador não deve liberar a área com base em inspeção visual própria.
É seguro retomar a produção antes do laudo pericial ficar pronto?
Não, quando há dano estrutural, incêndio prolongado ou dúvida sobre a origem do evento. A retomada antecipada pode expor trabalhadores a colapso parcial, reignição de resíduos ou falha de instalações elétricas e de combate a incêndio ainda não verificadas.
Qual a diferença entre inspeção preliminar e perícia estrutural?
A inspeção preliminar resolve a segurança imediata, definindo o que pode ou não ser acessado. A perícia, conduzida por profissional habilitado com ART ou RRT, apura causa, extensão do dano e subsidia decisões sobre reparo, reforço, demolição ou responsabilidade técnica.
A NR-20 se aplica a indústrias de aerossóis mesmo sem armazenamento de grandes volumes de combustível?
Sim, a NR-20 se aplica à extração, produção, armazenamento, transferência, manuseio e manipulação de inflamáveis, categoria que inclui os propelentes utilizados em aerossóis, independentemente do volume total estocado na planta.
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
Sua empresa sofreu um incêndio ou explosão? Fale com a MTA Engenharia para inspeção, laudo de interdição e perícia estrutural.
Resposta técnica e ágil, com ART, sem compromisso. Serviço relacionado: Laudos Técnicos e Inspeções.




