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Incêndio em Indústria de Aerossóis: Quando o Galpão Deve Ser Interditado e Periciado?

Eng. Marcelo Ximenez7 min de leitura

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Incêndio em Indústria de Aerossóis: Quando o Galpão Deve Ser Interditado e Periciado?

Resumo rápido

  • Galpão atingido por explosão ou incêndio deve ser isolado e avaliado por profissional habilitado antes de qualquer limpeza, religação elétrica ou retomada de produção.
  • Deformação de pilares, treliças ou ligações, fissuras novas e cilindros aquecidos são sinais objetivos de interdição imediata.
  • A perícia, com ART/RRT, é indispensável quando há vítimas, dúvida sobre a origem do evento, dano estrutural ou disputa entre seguradora, empresa e autoridades.

Uma explosão seguida de incêndio atingiu uma fábrica de aerossóis em Diadema, São Paulo, no dia 8 de outubro, deixando 13 pessoas feridas, segundo o Diário do Grande ABC. As informações disponíveis até a publicação deste texto não detalham a causa do evento nem a extensão dos danos à edificação, mas o padrão típico desse tipo de sinistro (sobrepressão interna seguida de propagação de chamas em linha de envase) costuma deixar sequelas estruturais que não são visíveis a olho nu.

Imagem ilustrativa: Brasília (DF), 04/10/2026 - Fachada do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, durante o início da apuração dos votos das eleições de 2026.
Imagem ilustrativa: Brasília (DF), 04/10/2026 - Fachada do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, durante o início da apuração dos votos das eleições de 2026.Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil (reprodução autorizada com crédito)

O caso expõe uma pergunta técnica que vai além do atendimento de emergência: em que momento o galpão deixa de ser cena de resgate e passa a exigir interdição formal e perícia? A resposta não é discricionária. Decorre de critérios objetivos de estabilidade estrutural, de risco residual de incêndio e explosão, e de exigências normativas que recaem sobre o empregador e sobre o responsável técnico pela edificação.

Por que galpões industriais falham em explosões de aerossóis

Aerossóis embalados sob pressão usam propelentes inflamáveis, geralmente hidrocarbonetos como butano, propano e isobutano. Em caso de vazamento e ignição, forma-se uma deflagração (combustão com frente de chama subsônica) ou, em concentrações e confinamentos específicos, uma explosão de vapor com sobrepressão significativa dentro do galpão. Esse carregamento é dinâmico e impulsivo, diferente das ações estáticas e de vento previstas em projeto conforme a NBR 6123.

O resultado prático é um modo de falha que o projeto estrutural convencional não contempla: ligações parafusadas rompidas por tração dinâmica, painéis de vedação projetados a distância, e deformação permanente de terças e treliças por flexão súbita. Some-se a isso o incêndio subsequente, que eleva a temperatura do aço estrutural. Acima de aproximadamente 400°C a 500°C o aço carbono já perde parcela relevante do limite de escoamento, conforme parâmetros de resistência ao fogo tratados na NBR 14323, e perfis esbeltos expostos diretamente à chama podem atingir a temperatura crítica de colapso em poucos minutos sem proteção passiva.

Cilindros e latas de aerossol remanescentes no galpão agravam o quadro: aquecimento continuado de recipientes pressurizados pode gerar nova ruptura (mecanismo análogo ao BLEVE em escala menor), mesmo após o incêndio principal estar controlado. É por isso que a inspeção pós-sinistro não pode se limitar à checagem visual da cobertura: precisa avaliar simultaneamente a integridade estrutural e o risco químico residual.

Sinais que exigem interdição imediata do galpão

A interdição preventiva deve ser decretada sempre que houver dúvida razoável sobre a estabilidade da edificação ou sobre a eliminação do risco de reignição. Na prática, os seguintes sinais indicam que a área não pode ser liberada sem avaliação técnica prévia:

Deformação de treliças e terças metálicas por exposição térmica é um dos sinais que exigem interdição imediata.
Deformação de treliças e terças metálicas por exposição térmica é um dos sinais que exigem interdição imediata.
  • Deslocamento, flambagem, torção ou esmagamento de pilares e vigas metálicas ou de concreto
  • Treliças ou terças deformadas, ligações rompidas, parafusos cisalhados ou arrancados
  • Cobertura abaulada, parcialmente desprendida ou com risco iminente de queda de telhas
  • Fissuras novas em pilares, vigas, lajes, fundações ou pisos industriais
  • Paredes fora de prumo e danos visíveis em contraventamentos e tirantes
  • Incêndio sob a cobertura com exposição prolongada ao calor, mesmo sem colapso visível
  • Portas, painéis sanduíche ou vedações leves projetados pela onda de pressão
  • Cilindros, latas ou recipientes de aerossol aquecidos, estufados ou com vazamento
  • Odor de gás, atmosfera potencialmente explosiva ou ventilação natural comprometida
  • Sistemas elétricos, quadros de comando ou equipamentos de processo atingidos pelo fogo ou pela água de combate

Checklist de inspeção preliminar pós-sinistro

Antes de qualquer ingresso não essencial, a equipe técnica deve seguir uma sequência mínima de verificação, sem adentrar áreas de risco sem plano de segurança:

  1. Confirmar o afastamento de pessoas e o controle de acessos ao perímetro afetado
  2. Verificar, com equipe treinada, vazamentos residuais, linhas pressurizadas e fontes de ignição
  3. Registrar fotograficamente a posição de cilindros, equipamentos e fragmentos antes de qualquer remoção
  4. Avaliar à distância desaprumos, deformações, ruídos de trabalho na estrutura e fissuras aparentes
  5. Checar a condição de fundações, pisos industriais e elementos de contraventamento
  6. Inspecionar painéis elétricos, quadros de comando e sistemas de proteção contra incêndio atingidos
  7. Elaborar relatório preliminar de estabilidade com delimitação objetiva de áreas liberadas e interditadas

Quando a perícia estrutural é indispensável

A inspeção preliminar resolve a questão da segurança imediata. A perícia, por sua vez, estabelece causa, extensão do dano e responsabilidade técnica, e deve ser conduzida por profissional habilitado com ART ou RRT compatível com o escopo do serviço. Ela é indispensável quando há:

  • Vítimas, feridos graves ou suspeita de falha de procedimento operacional
  • Explosão com dano estrutural constatado ou propagação do incêndio para áreas vizinhas
  • Dúvida sobre a origem do evento: falha de equipamento, vazamento, erro de manuseio ou combinação de fatores
  • Necessidade de separar dano por incêndio, dano por sobrepressão e dano por impacto mecânico
  • Comprometimento de fundações, instalações elétricas ou sistemas de proteção contra incêndio
  • Disputa entre seguradora, empresa, trabalhadores ou vizinhos sobre extensão de prejuízos
  • Definição técnica entre reparo, reforço, demolição parcial ou reconstrução
  • Exigência formal de autoridade pública, Corpo de Bombeiros ou processo judicial e administrativo

Estrutura submetida a carregamento fora do previsto em projeto deve ser tratada como estrutura de capacidade desconhecida até que a perícia prove o contrário.

— Prática usual de engenharia forense em sinistros industriais

Em qualquer um desses cenários, a remoção de peças, a limpeza de resíduos, a religação elétrica antecipada ou a movimentação de cilindros antes do registro técnico pode destruir evidências essenciais à determinação da causa, inclusive em eventual investigação de autoria ou de crime, quando aplicável.

Procedimento técnico recomendado, passo a passo

A sequência abaixo organiza a resposta técnica entre o momento do sinistro e a liberação formal da edificação, sem sobrepor etapas que exigem competências distintas (bombeiros, defesa civil, perito, calculista):

Vistoria técnica após o sinistro: registro fotográfico e avaliação preliminar antes de qualquer liberação da área.
Vistoria técnica após o sinistro: registro fotográfico e avaliação preliminar antes de qualquer liberação da área.
  1. Acionar emergência, evacuar e controlar fontes de ignição no perímetro afetado
  2. Confirmar, com equipe autorizada, a eliminação de perigos imediatos (vazamentos, cilindros aquecidos, energia elétrica ativa, áreas quentes)
  3. Preservar o local: fotografar, filmar e registrar a posição de equipamentos, válvulas e fragmentos antes da remoção
  4. Realizar inspeção preliminar sem ingresso desnecessário, com escoramento emergencial quando indicado
  5. Emitir relatório de estabilidade e interdição, delimitando áreas liberadas, restritas e interditadas
  6. Executar a investigação detalhada: projeto estrutural, memoriais de cálculo, histórico de manutenção, inventário de inflamáveis e dados de processo
  7. Liberar a edificação formalmente, de forma parcial ou total, apenas após comprovação de estabilidade estrutural e de segurança contra novo incêndio ou explosão

Normas técnicas aplicáveis à avaliação pós-incêndio

A NR-20 regula a segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis, e se aplica diretamente a indústrias que armazenam ou manipulam propelentes de aerossol. Ela exige gestão de riscos, plano de resposta a emergências e revisão obrigatória desse plano após qualquer vazamento, incêndio ou explosão, o que torna a investigação pós-sinistro uma obrigação documental, não apenas uma boa prática.

A NR-23 trata da proteção contra incêndios nos ambientes de trabalho, exigindo medidas de prevenção e condições de abandono rápido e seguro, sempre em conformidade com a legislação estadual de incêndio e, quando aplicável, com normas técnicas oficiais do corpo de bombeiros local.

No campo estrutural, a NBR 8800 é a referência para verificação, reparo ou reforço de estruturas de aço e mistas de aço e concreto, servindo de base para o calculista decidir entre substituição de elementos e reforço localizado. A análise de dano térmico deve considerar ainda os parâmetros de resistência ao fogo da NBR 14323, que trata do dimensionamento de estruturas de aço em situação de incêndio e orienta a estimativa de perda de capacidade resistente em função da temperatura atingida pelos perfis.

Como prevenir: gestão de risco em indústrias de aerossóis

A prevenção eficaz combina layout de armazenamento, detecção precoce e resposta treinada. Pilhas de aerossóis devem respeitar afastamento de fontes de calor e de equipamentos elétricos não classificados para área de risco, com ventilação adequada para dissipar vapores de propelente antes que atinjam o limite inferior de explosividade.

Detecção de gás, compartimentação corta-fogo entre a linha de envase e o depósito, e sistemas de combate automático dimensionados para líquidos e gases inflamáveis reduzem a probabilidade de que um princípio de incêndio evolua para explosão generalizada. O plano de emergência exigido pela NR-20 precisa ser testado periodicamente, não apenas arquivado, e revisado a cada evento relevante registrado na planta.

Do ponto de vista estrutural, vale avaliar previamente a resistência ao fogo dos elementos de sustentação da cobertura sobre áreas de maior carga de incêndio, prever rotas de alívio de pressão em painéis de vedação leves e manter documentação técnica atualizada (projeto, memorial de cálculo, histórico de inspeções) para acelerar qualquer perícia futura.

Perguntas frequentes

Quem pode determinar a interdição de um galpão após explosão ou incêndio?

A interdição formal envolve Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, autoridade trabalhista, autoridade municipal e o responsável técnico pela edificação, conforme a extensão do evento e a legislação estadual aplicável. O empregador não deve liberar a área com base em inspeção visual própria.

É seguro retomar a produção antes do laudo pericial ficar pronto?

Não, quando há dano estrutural, incêndio prolongado ou dúvida sobre a origem do evento. A retomada antecipada pode expor trabalhadores a colapso parcial, reignição de resíduos ou falha de instalações elétricas e de combate a incêndio ainda não verificadas.

Qual a diferença entre inspeção preliminar e perícia estrutural?

A inspeção preliminar resolve a segurança imediata, definindo o que pode ou não ser acessado. A perícia, conduzida por profissional habilitado com ART ou RRT, apura causa, extensão do dano e subsidia decisões sobre reparo, reforço, demolição ou responsabilidade técnica.

A NR-20 se aplica a indústrias de aerossóis mesmo sem armazenamento de grandes volumes de combustível?

Sim, a NR-20 se aplica à extração, produção, armazenamento, transferência, manuseio e manipulação de inflamáveis, categoria que inclui os propelentes utilizados em aerossóis, independentemente do volume total estocado na planta.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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