MTA EngenhariaEngenharia Estrutural
Energia Solar

Estrutura para Placa Solar em Telhado: Dimensionamento Segundo NBR 6123 e NBR 8800

Eng. Marcelo Ximenez6 min de leitura

Ler artigo
Estrutura para Placa Solar em Telhado: Dimensionamento Segundo NBR 6123 e NBR 8800

Resumo rápido

  • Em telhados, o vento costuma governar o dimensionamento da estrutura de suporte fotovoltaico, não o peso dos módulos.
  • A NBR 6123:2023 define a pressão dinâmica e os coeficientes de pressão, que variam fortemente entre bordas, cantos e centro da cobertura.
  • A NBR 8800 (e a NBR 14762 para perfis formados a frio) verifica trilhos, mãos francesas e ligações contra a combinação de ações da NBR 8681.

Projetar uma estrutura para placa solar em telhado pela lógica de "suportar o peso dos módulos" é o erro mais comum que vemos em revisão de projeto. O peso próprio do sistema fotovoltaico raramente ultrapassa 15 a 20 kgf/m². A ação que dimensiona a estrutura, na maioria dos casos, é o vento atuando por sucção sobre a face superior dos módulos.

Este artigo trata da metodologia de cálculo aplicável a estruturas de fixação sobre telhado, cruzando a ABNT NBR 6123:2023 (forças devidas ao vento) com a ABNT NBR 8800 (estruturas de aço) e normas complementares. O objetivo é apresentar o roteiro técnico que um projetista deve seguir, não um tutorial genérico de instalação.

Por que o vento governa o dimensionamento

Um módulo fotovoltaico instalado sobre telhado funciona, do ponto de vista aerodinâmico, como um obstáculo inclinado exposto ao escoamento de ar. A diferença de pressão entre a face inferior (parcialmente confinada) e a face superior (exposta ao fluxo) gera forças de sucção que podem superar em várias vezes o peso próprio do conjunto.

Em coberturas de baixa inclinação, típicas de galpões industriais e edificações comerciais, esse efeito de sucção é ainda mais crítico nas bordas do telhado e nos cantos, onde o descolamento do fluxo de ar amplifica os coeficientes de pressão. É justamente nessas regiões que ocorre a maioria dos casos de arrancamento de trilhos e módulos registrados em campo.

NBR 6123:2023: cálculo da ação do vento

A NBR 6123 estabelece o procedimento para obter a velocidade básica do vento (V0) a partir do mapa de isopletas, multiplicada pelos fatores S1 (topografia), S2 (rugosidade do terreno, dimensões da edificação e altura acima do solo) e S3 (fator estatístico, relacionado à ocupação e vida útil da estrutura), resultando na velocidade característica Vk.

A partir de Vk, obtém-se a pressão dinâmica pela relação q = 0,613 · Vk², em N/m². Essa pressão é multiplicada pelos coeficientes de pressão e forma (Cpe, Cpi e, para elementos de fixação, Cpe combinados de forma mais desfavorável) para chegar à carga de projeto aplicada sobre o módulo e sobre o trilho de fixação.

Elementos de vedação e fixação versus estrutura global

A norma diferencia explicitamente as ações sobre elementos de vedação, fixação e componentes de revestimento das ações sobre a estrutura como um todo. Essa distinção existe porque coeficientes de pressão locais, medidos em bordas e cantos, são bem superiores aos coeficientes médios usados para dimensionar a estrutura principal. Para o sistema de fixação fotovoltaico, o projetista deve trabalhar com os coeficientes locais, não com os globais.

Zonas críticas: bordas, cantos e centro da cobertura

O zoneamento aerodinâmico do telhado, conforme a NBR 6123, divide a cobertura em regiões de borda, canto e área central, cada uma com seu próprio coeficiente de pressão externa. Em telhados a duas águas ou em coberturas planas com parapeito baixo, os cantos apresentam os maiores módulos de sucção, frequentemente 1,5 a 2 vezes superiores aos valores centrais.

  • Layout dos módulos deve evitar, sempre que possível, alocar fileiras inteiras nas faixas de borda e canto mapeadas pela norma.
  • Quando a instalação nessas faixas for inevitável, o espaçamento entre fixadores deve ser reduzido para compensar a sucção local.
  • A altura da edificação e a proximidade de obstáculos vizinhos alteram o fator S2 e, portanto, a pressão de projeto em cada faixa.

NBR 8800: dimensionamento de perfis e ligações

Definida a ação do vento, a verificação estrutural dos componentes metálicos (trilhos, mãos francesas, bases de fixação, chapas de ligação e parafusos) segue a ABNT NBR 8800, no método dos estados limites. Isso inclui checagem de resistência à flexão e ao cisalhamento dos trilhos, estabilidade local e global de perfis esbeltos, e resistência das ligações parafusadas ao cisalhamento e ao arrancamento.

Quando os perfis de suporte são formados a frio (comum em suportes leves de alumínio extrudado ou aço galvanizado dobrado), a verificação incorpora também a ABNT NBR 14762, que trata dos fenômenos de instabilidade próprios de seções de parede fina, como flambagem local e distorcional, não cobertos com o mesmo detalhamento pela NBR 8800.

A combinação das ações de peso próprio, sobrecarga acidental e vento segue a ABNT NBR 8681, que define os fatores de ponderação e as combinações últimas e de serviço. É nessa etapa que se define se a sucção do vento, e não o peso, controla o dimensionamento do fixador.

Boas práticas de dimensionamento

  1. Levantar corretamente a categoria de rugosidade do terreno, a altura da edificação e a classe de dimensões, pois pequenas variações em S2 alteram significativamente Vk.
  2. Identificar o substrato da cobertura (telha cerâmica, fibrocimento, metálica trapezoidal, laje) e adotar o sistema de ancoragem compatível com sua capacidade resistente.
  3. Posicionar módulos evitando concentração nas faixas de borda e canto mapeadas pela NBR 6123.
  4. Dimensionar fixadores, ganchos e grampos para a combinação mais desfavorável de vento, não apenas para carga gravitacional.
  5. Verificar a estrutura existente do telhado (terças, caibros, treliças, apoios) quanto à reserva de capacidade para o acréscimo de carga do sistema fotovoltaico.
  6. Especificar montagem com torque controlado nos parafusos e grampos, conforme instrução do fabricante do sistema de fixação.

Cada furação na cobertura é um ponto potencial de infiltração. A solução de vedação deve ser compatível com o tipo de telha e verificada junto ao fabricante do sistema de cobertura, para não comprometer a estanqueidade em nome do desempenho estrutural.

Riscos comuns em projetos de fixação fotovoltaica

A maior parte das falhas de campo tem origem em decisões tomadas antes da execução, na fase de projeto ou de especificação de materiais.

  • Subdimensionamento para vento em regiões de maior velocidade básica ou coberturas com pouca proteção ao fluxo de ar.
  • Arrancamento de módulos e trilhos por sucção concentrada em bordas e cantos não identificados corretamente no projeto.
  • Especificação inadequada de chumbadores, parafusos ou grampos, sem verificação da capacidade de arrancamento no substrato.
  • Infiltrações decorrentes de furações mal vedadas ou incompatíveis com o perfil da telha.
  • Corrosão galvânica em interfaces aço-alumínio sem isolamento dielétrico adequado entre metais.
  • Sobrecarga local em telhas frágeis ou madeiramento com degradação, sem verificação prévia da capacidade estrutural.
  • Ancoragem em elemento não estrutural, como forro ou telha, sem transferência de carga para a estrutura de sustentação real.

Em coberturas, o sistema de fixação fotovoltaico precisa cumprir três funções simultâneas: suportar o peso do arranjo, resistir à ação do vento e preservar a estanqueidade da cobertura. Falhar em qualquer uma delas invalida o projeto.

— Prática de engenharia estrutural aplicada a sistemas fotovoltaicos

A responsabilidade técnica formal, com memorial de cálculo detalhando as combinações de ações e a verificação dos perfis e ligações, é o que diferencia um sistema de fixação confiável de um kit comercial instalado sem análise estrutural específica para o local.

Perguntas frequentes

O peso dos módulos fotovoltaicos pode ser desprezado no dimensionamento?

Não deve ser desprezado, mas raramente é a ação dominante. O peso próprio entra na combinação de ações da NBR 8681, porém em telhados a sucção do vento calculada pela NBR 6123 costuma gerar solicitações superiores nos fixadores.

Qual norma dimensiona os trilhos e parafusos da estrutura de fixação?

A ABNT NBR 8800 dimensiona perfis e ligações metálicas em geral. Quando os perfis são formados a frio, como em suportes de alumínio ou aço galvanizado dobrado, aplica-se também a ABNT NBR 14762 para os fenômenos de instabilidade local e distorcional.

Por que as bordas do telhado exigem mais fixadores?

Porque os coeficientes de pressão externa nessas faixas, definidos pela NBR 6123, são substancialmente maiores do que na área central da cobertura, gerando sucção mais intensa sobre os módulos e trilhos ali instalados.

É necessário verificar a estrutura existente do telhado antes de instalar placas solares?

Sim. Terças, caibros, treliças e telhas precisam ter reserva de capacidade resistente para o acréscimo de carga do sistema fotovoltaico, especialmente em coberturas antigas ou já próximas do limite de projeto original.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

Precisa de memorial de cálculo estrutural para seu sistema fotovoltaico? Fale com a MTA Engenharia.

Resposta técnica e ágil, com ART, sem compromisso. Serviço relacionado: Estruturas para Usinas Fotovoltaicas.

Leia também

Receba os próximos

Receba artigos como este

Conteúdo técnico sobre engenharia estrutural, normas e segurança direto no seu e-mail.

Eng. Marcelo Ximenez, responsável técnico da MTA Engenharia