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Incêndio em Galpão em São José/SC: Quando Interditar e Exigir Perícia Estrutural

Eng. Marcelo Ximenez9 min de leitura

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Incêndio em Galpão em São José/SC: Quando Interditar e Exigir Perícia Estrutural

Resumo rápido

  • Inspeção visual dos bombeiros não substitui laudo estrutural: a interdição deve ser preventiva até a conclusão da perícia.
  • O aço perde resistência mecânica de forma significativa a partir de 400°C e sofre redução severa acima de 600°C, conforme fatores de redução da NBR 14323.
  • A decisão entre reforço, substituição ou demolição só pode ser tomada após ensaios, reavaliação da capacidade residual e emissão de laudo com ART.

Na madrugada de 13 de outubro de 2026, um incêndio de grandes proporções atingiu um galpão comercial e industrial de autopeças no bairro Barreiros, em São José, na Grande Florianópolis. Segundo o G1, parte da cobertura e trechos das paredes da edificação colapsaram durante o combate às chamas. Um prédio residencial vizinho precisou ser evacuado como medida preventiva. Não houve feridos.

Imagem ilustrativa: 20/07/2026 - Tempestade , chuva , chuvas , Nuvens de chuva , tempo fechado .
Imagem ilustrativa: 20/07/2026 - Tempestade , chuva , chuvas , Nuvens de chuva , tempo fechado .Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil (reprodução autorizada com crédito)

Conforme reportagem do Mixvale, a Polícia Científica iniciou a coleta de vestígios no local para apurar o ponto de origem e a causa do fogo, ainda não confirmada. O episódio expõe um problema recorrente em edificações industriais brasileiras: a decisão de interditar, escorar ou autorizar o retorno de operação após um incêndio raramente segue um protocolo técnico claro, e costuma ser tomada sob pressão comercial para retomar a atividade.

Por que o calor do incêndio compromete a estrutura metálica

Galpões industriais no Brasil são majoritariamente resolvidos em estrutura metálica leve, com treliças, terças e contraventamentos dimensionados para cargas de vento e peso próprio, não para exposição térmica prolongada. O aço estrutural começa a perder resistência mecânica de forma perceptível a partir de 400°C e sofre queda acentuada do módulo de elasticidade acima de 600°C. A NBR 14323 fornece fatores de redução aplicáveis ao limite de escoamento e ao módulo de elasticidade em função da temperatura: a 600°C, o fator de redução da resistência ao escoamento gira em torno de 0,47; a 700°C, cai para cerca de 0,23. Um perfil que resistia com folga em temperatura ambiente pode entrar em colapso sob as mesmas cargas de serviço, sem alteração aparente na geometria.

Treliça metálica com empenamento e perda de alinhamento após exposição térmica intensa.
Treliça metálica com empenamento e perda de alinhamento após exposição térmica intensa.

O mecanismo de falha raramente é só a perda de resistência pura do material. Com o aquecimento, as barras tendem a se dilatar, mas a vinculação da treliça restringe parte dessa dilatação, gerando esforços de compressão adicionais nos banzos. Se o banzo comprimido perde o contraventamento lateral, por exemplo por falha de uma chapa de ligação, ele flamba antes mesmo de atingir a temperatura crítica teórica do material isolado. Essa combinação de redução de resistência, esforço induzido pela restrição térmica e perda de travamento lateral costuma explicar colapsos parciais de cobertura como o registrado em São José, atingindo um trecho específico da treliça sem derrubar a estrutura inteira.

No resfriamento, o quadro não melhora automaticamente. Deformações residuais permanecem, ligações parafusadas perdem parte da pretensão original, soldas podem apresentar microfissuras invisíveis a olho nu, e a redistribuição de esforços para elementos vizinhos pode sobrecarregar banzos e montantes que não foram diretamente expostos ao calor mais intenso. Por isso, uma treliça ainda de pé após a extinção do incêndio não é sinônimo de estrutura segura.

Sinais de risco que exigem avaliação antes de qualquer acesso

Antes de autorizar o retorno de qualquer pessoa à área incendiada, mesmo que o combate às chamas já tenha sido encerrado pelos bombeiros, o responsável técnico deve verificar, a distância segura, um conjunto de indícios que por si só já justificam a interdição.

  • Perda de prumo ou de alinhamento em pilares, pórticos e treliças
  • Empenamento, flambagem local ou encurvadura visível em banzos e diagonais
  • Coloração azulada, acinzentada ou com crosta de óxido em perfis de aço, indicando exposição a temperaturas elevadas
  • Deformação de terças, arrancamento de telhas e falhas em fixadores da cobertura
  • Fissuras novas ou lascamento explosivo (spalling) em elementos de concreto armado, com ou sem exposição de armadura
  • Água de combate acumulada sobre laje ou cobertura, gerando sobrecarga não prevista em projeto
  • Danos visíveis em ligações, chumbadores, soldas e bases de pilares
  • Proximidade de edificações ocupadas no raio de projeção de queda de elementos

A ausência desses sinais não dispensa a perícia quando o incêndio foi prolongado ou de alta intensidade, ou quando havia estoque de materiais combustíveis (solventes, plásticos, pneus, componentes automotivos) próximo à estrutura, como é típico em galpões de autopeças e centros de distribuição.

Protocolo de interdição imediata do galpão

A interdição deve ser preventiva e imediata sempre que houver qualquer possibilidade de instabilidade residual, queda de elementos ou exposição a instalações energizadas. Liberar o acesso com base apenas na inspeção visual da guarnição de combate a incêndio, sem avaliação estrutural formal, expõe trabalhadores, peritos e curiosos a risco de colapso progressivo.

  1. Isolar fisicamente o galpão e a área de projeção de queda de elementos, com faixa de segurança proporcional à altura da estrutura
  2. Desligar e bloquear energia elétrica, gás e sistemas pressurizados antes de qualquer reentrada
  3. Proibir entrada de trabalhadores, proprietários e curiosos até a conclusão da avaliação técnica
  4. Avaliar o risco de propagação a edificações vizinhas, sobretudo quando há parede compartilhada ou elementos estruturais apoiados na edificação sinistrada
  5. Preservar o local para a perícia da Polícia Científica, como ocorre em São José, evitando remoção de escombros antes da coleta de vestígios, salvo intervenção emergencial para eliminar risco iminente
  6. Registrar fotograficamente o estado pós-incêndio antes de qualquer escoramento, remoção ou demolição

A interdição parcial só é tecnicamente defensável quando existem setores estruturalmente independentes, com juntas de dilatação ou trechos efetivamente desconectados do volume afetado, e desde que essa independência seja comprovada, não presumida. A liberação de parte da edificação precisa ser formalizada por responsável técnico, com ART, delimitação precisa em planta das áreas liberadas e interditadas, e justificativa técnica documentada.

Como conduzir a perícia estrutural pós-incêndio

A perícia estrutural pós-incêndio não se resume a uma vistoria de campo. Ela precisa estimar a temperatura máxima atingida em cada região da estrutura, avaliar a resistência residual dos materiais e verificar a capacidade de carga remanescente antes de qualquer decisão sobre reforço, substituição ou demolição.

Vistoria técnica de elementos metálicos para avaliação da resistência residual após incêndio.
Vistoria técnica de elementos metálicos para avaliação da resistência residual após incêndio.
  • Levantamento da temperatura estimada por indícios indiretos, como cor do aço, estado da pintura e fusão de materiais próximos
  • Verificação geométrica de prumo, flechas e deslocamentos em relação ao projeto original
  • Inspeção de ligações parafusadas e soldadas, incluindo torque residual e integridade de cordões de solda
  • Ensaios de dureza e, quando necessário, extração de corpos de prova do aço para análise metalúrgica
  • Em concreto armado, esclerometria e ultrassom, sempre interpretados com cautela e complementados por extração de testemunhos quando houver dúvida sobre a resistência residual
  • Reanálise estrutural considerando as propriedades residuais dos materiais e eventual redistribuição de esforços
  • Emissão de laudo técnico com ART, indicando se a estrutura pode ser reparada, reforçada ou precisa ser demolida

Em estruturas metálicas, a NBR 8800 orienta a verificação da capacidade resistente em condição de serviço, mas a avaliação pós-incêndio exige adaptação dessa verificação às propriedades residuais do aço, que podem ser inferiores às nominais mesmo sem deformação visível. Em concreto armado, a NBR 6118 e a NBR 15200 (projeto de estruturas de concreto em situação de incêndio) orientam a investigação de perda de aderência, redução do módulo de elasticidade e necessidade de reforço ou substituição de armaduras expostas.

Coberturas leves e sobrecarga de água de combate

Um ponto frequentemente subestimado em incêndios de galpão é a sobrecarga gerada pela própria água de combate. Telhas metálicas e fibrocimento, terças, tirantes e contraventamentos de cobertura são dimensionados para cargas de vento conforme a NBR 6123 e para peso próprio, não para o acúmulo de água sobre uma superfície já fragilizada pelo calor. Esse acúmulo pode gerar instabilidade fora do plano, arrancamento de fixadores e colapso localizado mesmo após o fim do incêndio.

A interação entre paredes deslocadas e a cobertura apoiada sobre elas é outro fator crítico. Se uma parede de alvenaria ou um pórtico metálico sofreu deslocamento lateral durante o incêndio, a cobertura apoiada pode perder o alinhamento original dos apoios, criando excentricidades não previstas em projeto. Esse tipo de dano costuma passar despercebido em uma inspeção rápida, mas é justamente o que provoca colapsos tardios, dias ou semanas após o evento.

Normas técnicas aplicáveis à avaliação pós-incêndio

A seleção final das normas aplicáveis deve ser confirmada pelo responsável técnico conforme a edição vigente de cada documento, mas o conjunto normalmente relevante para avaliação estrutural pós-incêndio em galpões inclui:

  • NBR 8800: projeto de estruturas de aço e estruturas mistas de aço e concreto, aplicável à verificação de elementos metálicos remanescentes
  • NBR 14323: dimensionamento de estruturas de aço em situação de incêndio, com fatores de redução de resistência e rigidez em função da temperatura
  • NBR 6118: projeto de estruturas de concreto, referência para avaliação de elementos de concreto armado atingidos
  • NBR 15200: projeto de estruturas de concreto em situação de incêndio
  • NBR 6120: ações para cálculo de estruturas de edificações, útil para revisar cargas permanentes e acidentais após remoção de escombros
  • NBR 8681: ações e segurança nas estruturas, suporte às combinações de ações na reavaliação
  • NBR 14432: exigências de resistência ao fogo de elementos construtivos
  • NBR 16747: inspeção predial, com princípios de classificação de anomalias aplicáveis, ainda que uma edificação incendiada exija protocolo específico além da inspeção predial de rotina

A estrutura que resistiu ao incêndio sem colapso total não é, por esse fato isolado, uma estrutura segura para reocupação.

— Princípio geral de avaliação estrutural pós-sinistro

Como reduzir o risco estrutural em galpões industriais

Casos como o de São José reforçam a importância de medidas preventivas que reduzam tanto a probabilidade de incêndio quanto a vulnerabilidade estrutural caso ele ocorra. Compartimentação adequada entre áreas de estoque e áreas operacionais, uso de tinta intumescente ou outras proteções passivas dimensionadas para o TRRF exigido, sistemas de detecção e combate automático bem mantidos, e armazenamento controlado de materiais combustíveis são medidas que reduzem diretamente a severidade térmica a que a estrutura fica exposta.

Do ponto de vista estrutural, contraventamentos redundantes, ligações com reserva de capacidade e compatibilização entre projeto de PPCI e projeto estrutural ajudam a evitar que um incêndio localizado evolua para colapso progressivo. A revisão periódica do projeto de prevenção e combate a incêndio, junto com inspeções estruturais de rotina, é mais barata do que lidar com a interdição total de um galpão após um sinistro.

Checklist prático pós-incêndio em galpão

  • Isolar a área e impedir acesso antes de qualquer avaliação técnica formal
  • Desligar energia, gás e sistemas pressurizados
  • Registrar fotograficamente o estado da estrutura antes de qualquer remoção
  • Acionar engenheiro estruturalista para vistoria técnica com ART
  • Verificar sinais de deformação, flambagem, fissuração e perda de prumo
  • Avaliar sobrecarga de água de combate em coberturas e lajes
  • Definir, com base em laudo, se a interdição será total ou parcial, com delimitação formal das áreas
  • Só autorizar escoramento, demolição ou retorno de operação após conclusão do laudo técnico

Perguntas frequentes

Quem pode autorizar a reabertura de um galpão após um incêndio?

A reabertura, total ou parcial, só deve ocorrer mediante laudo técnico de responsável habilitado, com ART, baseado em inspeção estrutural detalhada e, quando necessário, ensaios complementares. A liberação pelos bombeiros refere-se ao controle do foco de incêndio, não à segurança estrutural da edificação.

Uma estrutura metálica que não colapsou durante o incêndio ainda pode estar comprometida?

Sim. O aço pode perder resistência e rigidez significativas a partir de 400°C sem apresentar deformação visível imediata. Deformações residuais, falhas em ligações e redistribuição de esforços podem levar a colapsos tardios, dias ou semanas após o evento, mesmo sem sinais evidentes no momento da inspeção inicial.

Qual a diferença entre interdição total e parcial após um incêndio em galpão?

A interdição parcial só é válida quando há setores estruturalmente independentes, com juntas de dilatação ou separação física comprovada em relação à área afetada. Fora dessa condição, a interdição deve ser total até a conclusão da avaliação estrutural, já que o risco de colapso progressivo pode se estender a trechos aparentemente intactos.

Quais ensaios são usados para avaliar concreto armado após incêndio?

Os mais comuns são esclerometria e ultrassom, que fornecem indicativos de resistência superficial e homogeneidade do concreto. Quando há dúvida relevante sobre a resistência residual, esses resultados devem ser complementados por extração de testemunhos e análise das armaduras, conforme orientação da NBR 6118 e da NBR 15200.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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Resposta técnica e ágil, com ART, sem compromisso. Serviço relacionado: Projetos de Estruturas Metálicas.

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