Proteção contra Incêndio

TRRF: Tempo Requerido de Resistência ao Fogo na Prática do Projeto Estrutural

Eng. Marcelo Ximenez5 min de leitura
TRRF: Tempo Requerido de Resistência ao Fogo na Prática do Projeto Estrutural

Resumo rápido

  • TRRF é exigência normativa mínima em minutos, não representa a duração real de um incêndio nem o tempo de evacuação.
  • Os valores usuais (30, 60, 90 e 120 min) dependem de ocupação, altura, risco de incêndio e classificação da edificação.
  • O atendimento ao TRRF exige combinar NBR 14432 com NBR 14323 (aço) ou NBR 15200 (concreto), além das ITs do Corpo de Bombeiros do estado.

TRRF (tempo requerido de resistência ao fogo) é o intervalo mínimo, expresso em minutos, durante o qual um elemento construtivo deve manter sua função estrutural ou de compartimentação sob a curva de incêndio-padrão. É um dado de entrada de projeto, definido pela regulamentação de segurança contra incêndio antes de qualquer verificação de seção, cobrimento ou proteção passiva.

O que é TRRF na engenharia estrutural

Do ponto de vista estrutural, o TRRF não descreve o comportamento real de um incêndio compartimentado, com fase de crescimento, flashover e decaimento. Ele é um requisito normativo, calibrado sobre a curva de incêndio-padrão da ISO 834, que serve de referência para ensaios e para os métodos analíticos das normas de dimensionamento em situação de incêndio.

É comum a confusão entre TRRF e TRF (tempo de resistência ao fogo). O TRF é o resultado obtido em ensaio ou cálculo, ou seja, o desempenho real do elemento sob a ação térmica padronizada. O TRRF é a exigência mínima que esse TRF precisa atingir para a edificação estar conforme. Projetar corretamente significa garantir TRF ≥ TRRF para cada elemento crítico da estrutura e da compartimentação.

Valores de TRRF e critérios de enquadramento

Os valores mais recorrentes na prática nacional são 30, 60, 90 e 120 minutos, definidos em função de quatro variáveis: risco de incêndio da ocupação, altura da edificação, presença de subsolo e consequências de uma eventual falha estrutural. Edificações de maior altura ou ocupações com maior carga de incêndio tendem a exigir TRRF mais elevado, já que o tempo de intervenção do Corpo de Bombeiros e o risco de propagação vertical aumentam.

Elementos secundários, sem função de compartimentação e cuja falha não compromete a estabilidade global, podem receber tratamento diferenciado. A IT 08/2018 do Corpo de Bombeiros do RS, por exemplo, admite redução de 30 minutos no TRRF desses elementos, respeitado o mínimo de 15 minutos. Esse tipo de flexibilização varia entre estados e deve ser confirmado na IT vigente antes de ser incorporado ao memorial de cálculo.

Normas ABNT aplicáveis ao TRRF

A NBR 14432 é a norma central para definição de TRRF, trazendo as exigências de resistência ao fogo dos elementos construtivos em função da classificação da edificação. Ela não dimensiona a estrutura em si: define o requisito que as normas de projeto em situação de incêndio devem atender.

  • NBR 14432: exigências de resistência ao fogo de elementos construtivos e critérios de classificação da edificação para fins de TRRF.
  • NBR 14323: dimensionamento de estruturas de aço e mistas aço-concreto em situação de incêndio.
  • NBR 15200: projeto de estruturas de concreto em situação de incêndio, incluindo métodos tabulares de cobrimento.
  • NBR 8800: base para projeto de estruturas de aço e mistas à temperatura ambiente, usada em conjunto com a NBR 14323 para a verificação em incêndio.
  • Instruções Técnicas do Corpo de Bombeiros (ex.: IT 08/2018 do RS): detalham TRRF, métodos de comprovação e particularidades locais.

Um erro recorrente em memoriais de cálculo é citar apenas a NBR 8800 como justificativa de resistência ao fogo. Ela trata do dimensionamento estrutural em temperatura ambiente; a verificação térmico-estrutural em incêndio depende necessariamente da NBR 14323 (aço) ou da NBR 15200 (concreto), aplicadas sobre o TRRF definido pela NBR 14432 e pela IT local.

Métodos de verificação: tabular e analítico

A comprovação do TRRF pode ser feita por método tabular ou por método de cálculo (avaliação analítica). O método tabular, presente na NBR 15200 para concreto, associa dimensões mínimas de seção e cobrimento nominal da armadura diretamente ao TRRF exigido, sem necessidade de análise térmica detalhada. É rápido, conservador e adequado a elementos padronizados.

Para estruturas metálicas, como o aço perde capacidade resistente de forma acentuada acima de 400°C a 500°C, o método tabular tem aplicação mais limitada. Prevalece o cálculo analítico conforme a NBR 14323, que determina o fator de massividade do perfil, a temperatura crítica do aço e, a partir daí, a espessura necessária de material de proteção passiva (tinta intumescente, argamassa projetada ou placas) para que o elemento atinja o TRRF especificado.

Compatibilização com a proteção passiva

Definir o TRRF cedo no cronograma evita retrabalho em compatibilização. O sistema de proteção passiva (cobrimento de concreto, argamassa projetada, placas corta-fogo, tinta intumescente) precisa ser especificado em função do TRRF de cada elemento e do seu fator de massividade, não de um valor genérico aplicado à edificação inteira.

  • Definir o TRRF na fase de estudo preliminar, antes do lançamento estrutural definitivo.
  • Cruzar ocupação, altura e existência de subsolo com a classificação da NBR 14432 e da IT estadual correspondente.
  • Especificar espessura de proteção passiva por perfil, considerando fator de massividade individual, não um valor médio.
  • Validar em campo espessura, densidade, aderência e continuidade da proteção aplicada, incluindo ligações e furos.
  • Registrar o TRRF adotado por elemento no memorial de cálculo, com referência normativa explícita.

Erros frequentes na aplicação do TRRF

O erro mais comum é tratar o TRRF como sinônimo de tempo de incêndio real ou tempo de abandono da edificação. São grandezas de naturezas distintas: o TRRF é um requisito de projeto sobre uma curva convencional, enquanto o tempo de evacuação é objeto da engenharia de segurança contra incêndio e de rotas de fuga, não do dimensionamento estrutural.

Outro problema recorrente é adotar o TRRF de forma genérica para toda a edificação, ignorando que subsolos, áreas de risco elevado ou mudanças de uso em um mesmo pavimento podem exigir TRRF diferenciado por zona ou por elemento. Também é frequente a adoção de sistemas de proteção passiva sem ensaio ou laudo que respalde a espessura especificada para o TRRF exigido, o que invalida a comprovação perante o Corpo de Bombeiros.

Por fim, ignorar a versão vigente das ITs estaduais é um risco recorrente em projetos que atendem múltiplos estados. Os critérios de TRRF, embora referenciados nas mesmas normas ABNT, podem ter particularidades de aplicação, reduções admissíveis e exigências documentais distintas conforme o Corpo de Bombeiros local.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre TRRF e TRF?

TRRF é a exigência normativa mínima em minutos que um elemento deve atender. TRF é o desempenho real obtido em ensaio ou cálculo sob a curva de incêndio-padrão. O projeto é válido quando o TRF do elemento é igual ou superior ao TRRF exigido.

Quais são os valores usuais de TRRF no Brasil?

Os valores mais recorrentes são 30, 60, 90 e 120 minutos, variando conforme ocupação, risco de incêndio, altura da edificação e presença de subsolo, conforme classificação da NBR 14432 e da IT do Corpo de Bombeiros aplicável.

A NBR 8800 é suficiente para justificar resistência ao fogo em estruturas de aço?

Não. A NBR 8800 trata do dimensionamento em temperatura ambiente. A verificação em situação de incêndio, com base no TRRF exigido, deve seguir a NBR 14323, que trata especificamente do comportamento de estruturas de aço e mistas sob ação térmica.

O TRRF pode ser reduzido para elementos estruturais secundários?

Em algumas ITs estaduais, sim. A IT 08/2018 do RS, por exemplo, admite redução de 30 minutos no TRRF de elementos secundários, respeitado o mínimo de 15 minutos, desde que sua falha não comprometa a estabilidade global da estrutura.

MX

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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