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TRRF na Prática: Como Calcular o Tempo de Resistência ao Fogo da Estrutura de Concreto

Eng. Marcelo Ximenez6 min de leitura

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TRRF na Prática: Como Calcular o Tempo de Resistência ao Fogo da Estrutura de Concreto

Resumo rápido

  • O TRRF é definido pela NBR 14432 conforme uso, altura e subsolo da edificação, não pelo cálculo estrutural em si.
  • A NBR 15200 verifica se cobrimento, seção e detalhamento do concreto atendem ao TRRF exigido, com o método tabular limitado a fck de até 50 MPa.
  • Redução de até 30 minutos no TRRF exige condições de segurança contra incêndio comprovadas e aceite do Corpo de Bombeiros no licenciamento.

O que é TRRF e por que não é resultado de ensaio

O TRRF, tempo requerido de resistência ao fogo, é o valor em minutos que a norma exige para que um elemento estrutural ou de compartimentação mantenha capacidade portante e estanqueidade sob a curva de incêndio-padrão. É um parâmetro normativo, fixado antes do dimensionamento, e não um resultado de ensaio executado depois que a estrutura já está pronta.

Na prática de projeto estrutural em concreto, duas normas se complementam. A NBR 14432 define o TRRF exigido para cada elemento, em função da ocupação, da altura da edificação e da existência de subsolo. A NBR 15200 entra na sequência para verificar se a seção de concreto, o cobrimento e o detalhamento da armadura atendem a esse tempo exigido.

Como o TRRF é definido pela NBR 14432

O enquadramento começa pela classificação da ocupação conforme o uso predominante da edificação (residencial, comercial, industrial, depósito, entre outras classes previstas na norma). Em seguida, considera-se a altura da edificação, medida conforme critério da própria NBR 14432, e a existência de subsolo, já que pavimentos enterrados costumam exigir TRRF mais elevado por conta da dificuldade de ventilação e evacuação.

Com esses três parâmetros (uso, altura, subsolo), consulta-se a tabela de exigências da NBR 14432 ou, quando aplicável, a instrução técnica do Corpo de Bombeiros do estado. Em muitos licenciamentos, é a instrução técnica estadual, e não a norma federal isoladamente, que baliza o TRRF final exigido no projeto de segurança contra incêndio.

Um ponto que passa despercebido em projetos menos experientes: o TRRF não é único para todo o edifício. Pilares de subsolo podem ter exigência diferente de vigas de cobertura, e elementos de compartimentação (paredes corta-fogo, lajes de separação de uso) têm critério próprio, tratado separadamente das estruturas de sustentação.

Verificação da estrutura de concreto pela NBR 15200

Definido o TRRF, o projetista de estruturas de concreto verifica o atendimento por três caminhos possíveis previstos na NBR 15200: método tabular, método simplificado de cálculo ou método avançado (modelagem térmica e mecânica acoplada). Na maioria dos projetos correntes, o método tabular é o adotado por sua simplicidade operacional.

Limites de aplicação do método tabular

O método tabular da NBR 15200 correlaciona TRRF, dimensão mínima da seção e cobrimento nominal da armadura, para cada tipo de elemento (laje, viga, pilar, parede). Mas ele só é válido dentro de limites específicos: concreto com resistência característica à compressão de até 50 MPa e massa específica seca entre 2000 e 2800 kg/m³. Fora dessa faixa, o método tabular não pode ser aplicado sem justificativa técnica adicional, sendo necessário recorrer a método simplificado, cálculo avançado ou ensaio.

Isso tem implicação direta em projetos que usam concretos de alta resistência para reduzir seção de pilares em edifícios altos: o ganho estrutural em serviço pode entrar em conflito com o escopo do método tabular contra incêndio, exigindo verificação complementar.

Variáveis que governam o desempenho ao fogo do concreto

Além de cobrimento e dimensão da seção, o comportamento da estrutura de concreto sob incêndio-padrão depende do tipo de elemento (laje biapoiada se comporta diferente de laje contínua), da esbeltez de pilares, do tipo de agregado usado no traço, das condições de apoio e vinculação, e do risco de desplacamento (spalling) em concretos de maior resistência ou com baixa permeabilidade, que retêm mais umidade e pressão de vapor sob aquecimento rápido.

Redução do TRRF: quando e como se aplica

A NBR 15200 prevê, em anexo, a possibilidade de redução de até 30 minutos no TRRF indicado pela NBR 14432 ou pela legislação local, desde que a edificação apresente condições de segurança contra incêndio comprovadas: chuveiros automáticos (sprinklers) em operação, brigada treinada, controle de carga de incêndio, entre outros fatores previstos.

Essa redução não é automática. Ela depende de análise conjunta com o projeto de segurança contra incêndio e, na prática de licenciamento, de aceite explícito do Corpo de Bombeiros do estado. Reduzir o TRRF no memorial sem essa validação formal é motivo recorrente de reprovação em análise de projeto.

Fluxo prático de cálculo do TRRF ao dimensionamento

  1. Classificar a ocupação da edificação conforme uso predominante e verificar altura total e existência de subsolo.
  2. Consultar a tabela de TRRF na NBR 14432 ou na instrução técnica do Corpo de Bombeiros do estado, elemento por elemento (laje, viga, pilar, parede de compartimentação).
  3. Checar se há previsão de redução de TRRF por medidas de proteção ativa, conforme anexo da NBR 15200, e validar essa hipótese com o projeto de PPCI.
  4. Selecionar o método de verificação da NBR 15200: tabular, simplificado ou avançado, conforme resistência do concreto, geometria e complexidade do elemento.
  5. Dimensionar cobrimento e seção mínima pela tabela aplicável, já compatibilizando com o cobrimento exigido por durabilidade (NBR 6118).
  6. Registrar no memorial de cálculo o TRRF adotado por elemento e o método de verificação usado, com referência explícita à tabela ou cálculo aplicado.

Boas práticas para compatibilizar TRRF na estrutura de concreto

  • Verificar o TRRF ainda no anteprojeto, antes de fechar seções de pilares e cobrimentos de armadura.
  • Compatibilizar o TRRF exigido com arquitetura, rotas de fuga e compartimentação, e não tratar a estrutura de forma isolada do PPCI.
  • Adotar dimensões e cobrimentos que atendam à tabela sem depender de argamassa projetada ou revestimento contra fogo aplicado depois em obra.
  • Confirmar que o concreto especificado está dentro do escopo do método tabular antes de assumi-lo no memorial.
  • Tratar passagens de instalações, shafts, juntas e furos como pontos críticos de verificação, já que reduzem seção resistente ao fogo localmente.
  • Documentar no memorial qual critério foi usado: tabela, método simplificado, método avançado ou ensaio, elemento por elemento.

TRRF é exigência normativa mínima. Ele não substitui a análise de risco real de incêndio de uma edificação específica.

— Princípio geral adotado na verificação de segurança contra incêndio em estruturas de concreto

Erros comuns na verificação do TRRF em concreto armado

  • Confundir TRRF com tempo real de colapso da estrutura, tratando a exigência normativa como garantia física absoluta.
  • Usar o método tabular sem checar fck e massa específica do concreto contra os limites da NBR 15200.
  • Ignorar altura da edificação e uso ao consultar a tabela de TRRF, aplicando valor genérico de outro projeto.
  • Reduzir cobrimento ou seção em obra em relação ao projetado, comprometendo o TRRF verificado em cálculo.
  • Não considerar risco de desplacamento do concreto em elementos esbeltos ou com concreto de alta resistência.
  • Misturar critério de normas diferentes sem compatibilizar com a instrução técnica do Corpo de Bombeiros do estado onde a obra está licenciada.

Quando o método tabular não é suficiente

Estruturas com concreto de alta resistência acima de 50 MPa, elementos com geometria atípica, protensão, ou edificações com exigência de TRRF elevado combinada a arquitetura que não permite os cobrimentos e seções da tabela, exigem método simplificado de cálculo ou modelagem térmica avançada. Nesses casos, a verificação passa a considerar o gradiente de temperatura na seção transversal e a redução de resistência do aço e do concreto em função da temperatura atingida em cada ponto, o que demanda maior tempo de análise, mas evita superdimensionamento por excesso de conservadorismo do método tabular.

Em edifícios com uso misto ou exigências mais severas de segurança contra incêndio, a documentação exigida pelo Corpo de Bombeiros costuma pedir compatibilização explícita entre arquitetura, sistemas ativos (sprinklers, detecção) e a verificação estrutural, não bastando apresentar apenas a tabela de cobrimentos isoladamente.

Perguntas frequentes

TRRF é o mesmo valor para todos os elementos de uma edificação?

Não. O TRRF pode variar entre pilares, vigas, lajes e elementos de compartimentação, dependendo da posição no edifício (subsolo, pavimento tipo, cobertura) e da função de cada elemento conforme a NBR 14432.

É possível usar o método tabular da NBR 15200 para qualquer concreto?

Não. O método tabular se aplica a concretos com fck de até 50 MPa e massa específica seca entre 2000 e 2800 kg/m³. Fora desses limites, é necessário método simplificado, cálculo avançado ou ensaio.

A redução de 30 minutos no TRRF é automática para quem tem sprinklers?

Não. A redução prevista no anexo da NBR 15200 depende de análise conjunta com o projeto de segurança contra incêndio e de aceite formal do Corpo de Bombeiros no processo de licenciamento.

O cobrimento definido pela NBR 15200 substitui o cobrimento por durabilidade da NBR 6118?

Não. As duas exigências são independentes e deve-se adotar sempre o maior valor entre o cobrimento mínimo por resistência ao fogo e o cobrimento mínimo por classe de agressividade ambiental.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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