Neste artigo
- Responsabilidade técnica e exigências da NR-18
- NR-35 e o limite de 2,0 m para trabalho em altura
- NBR 8800:2024 como base de projeto e detalhamento
- Riscos críticos específicos da fase de montagem
- Boas práticas de engenharia para o plano de montagem
- Checklist de conformidade normativa para montagem metálica
Resumo rápido
- A NR-18 exige responsável técnico habilitado e PGR com SPIQ e meios de acesso previstos para toda montagem, manutenção ou desmontagem de estrutura metálica.
- A NR-35 se aplica a partir de 2,0 m de diferença de nível com risco de queda, obrigando planejamento formal da atividade em altura.
- A fase de montagem é estruturalmente mais crítica que a estrutura concluída: instabilidade parcial antes da contraventação definitiva é o risco de maior potencial catastrófico.
Montagem de estrutura metálica não é atividade de construção civil comum. É operação de alto risco, com carga suspensa, trabalho em altura e estabilidade estrutural transitória ocorrendo simultaneamente. A segurança na montagem de estruturas metálicas no Brasil é regida por três instrumentos que precisam conversar entre si desde o projeto: a NR-18, a NR-35 e a ABNT NBR 8800:2024. Ignorar essa interseção normativa é a causa raiz da maioria dos acidentes graves registrados em obras de galpões, mezaninos e edifícios estruturados em aço.
Responsabilidade técnica e exigências da NR-18
A NR-18 é explícita: toda montagem, manutenção e desmontagem de estrutura metálica deve ficar sob responsabilidade de profissional legalmente habilitado. Isso não é formalidade documental. Significa que o plano de montagem, a sequência executiva e os pontos de içamento precisam ter assinatura técnica e respaldo de cálculo, não apenas experiência de campo da equipe de montadores.
Além da responsabilidade técnica, a norma exige que o Sistema de Proteção contra Quedas (SPIQ) e os meios de acesso dos trabalhadores à estrutura estejam previstos formalmente no PGR da obra. Na prática, isso implica definir, antes do início dos trabalhos, por onde o montador sobe, onde ele se ancora em cada etapa e qual é o sistema de proteção coletiva compatível com a geometria daquela treliça, pórtico ou viga de rolamento específica.
Outros dois pontos da NR-18 costumam ser negligenciados no canteiro. O primeiro é a obrigatoriedade de recipiente ou suporte adequado para depositar ferramentas e fixadores durante a montagem, reduzindo o risco de queda de objetos sobre equipes que trabalham nos níveis inferiores. O segundo é o aterramento da estrutura desde o início da montagem, sempre que houver possibilidade de acúmulo de energia estática, algo comum em estruturas de grande porte antes da ligação equipotencial definitiva.
NR-35 e o limite de 2,0 m para trabalho em altura
A NR-35 se aplica a toda atividade executada acima de 2,0 m de diferença de nível em relação ao plano inferior, sempre que houver risco de queda. Em montagem de estruturas metálicas isso cobre praticamente toda a operação, do posicionamento de pilares ao aperto final de parafusos em terças e vigas de cobertura.
A norma exige planejamento, organização e execução da atividade com medidas de prevenção proporcionais ao risco identificado. Isso significa análise de risco específica para cada etapa da montagem, não um documento genérico de canteiro. Uma linha de vida horizontal projetada para o momento de içamento de treliças não serve, necessariamente, para a etapa de instalação de contraventamentos verticais. Cada fase tem geometria e pontos de ancoragem próprios.
NBR 8800:2024 como base de projeto e detalhamento
A ABNT NBR 8800:2024 é a norma de referência para projeto de estruturas de aço e estruturas mistas de aço e concreto em edificações, fundamentada no método dos estados-limite. Ela se aplica a perfis laminados, soldados e seções tubulares, com ligações por parafusos ou soldas. A atualização em relação à versão de 2008 traz revisões relevantes em critérios de dimensionamento e detalhamento que impactam diretamente a segurança da fase de montagem, não apenas a estrutura em serviço.
É aqui que muitos projetos falham na interface entre cálculo e execução: a NBR 8800 dimensiona a estrutura para as cargas de serviço, mas a fase de montagem submete elementos isolados a esforços que eles não vão receber na configuração final. Uma viga que trabalha em conjunto com laje mista, por exemplo, pode estar sujeita a flambagem lateral com torção durante o içamento, antes de qualquer restrição lateral estar instalada. O projetista estrutural precisa considerar essa condição transitória, e o plano de montagem precisa refletir essa análise.
Riscos críticos específicos da fase de montagem
A estrutura metálica em montagem é estatisticamente mais vulnerável do que a estrutura concluída. Os riscos mais recorrentes em obras de galpões, mezaninos e estruturas industriais são:
- Queda de trabalhadores durante içamento, posicionamento e aperto final de peças, antes da instalação completa de guarda-corpos ou linhas de vida.
- Queda de materiais, ferramentas e parafusos sobre equipes posicionadas em níveis inferiores durante a operação.
- Instabilidade parcial da estrutura na fase anterior à contraventação e fixação definitiva, especialmente em pórticos isolados ainda não travados.
- Falha de içamento por amarração inadequada, avaliação incorreta do centro de gravidade da peça ou falha mecânica do equipamento de guindar.
- Riscos elétricos por proximidade com redes energizadas e por acúmulo de energia estática antes do aterramento definitivo.
- Escorregamento e perda de equilíbrio em passarelas, vigas e plataformas provisórias sem piso definitivo instalado.
A combinação entre instabilidade estrutural provisória e trabalho em altura simultâneo é o que diferencia a montagem metálica de outras atividades de construção. Um pórtico isolado, sem contraventamento lateral instalado, pode ter capacidade de resistir a cargas verticais de peso próprio mas nenhuma resistência a esforços horizontais de vento ou desalinhamento durante o içamento da peça seguinte.
Boas práticas de engenharia para o plano de montagem
Um plano de montagem tecnicamente consistente vai muito além de definir a ordem de içamento. Ele precisa tratar cada etapa como uma configuração estrutural própria, com verificação de estabilidade específica. As práticas que reduzem efetivamente o risco são:
- Elaborar plano de montagem com sequência executiva definida, pontos de içamento calculados e critérios de liberação por etapa.
- Prever, desde o projeto e o PGR, os meios de acesso, pontos de ancoragem e proteção contra quedas compatíveis com cada fase.
- Fixar provisoriamente todas as peças antes de soldar, parafusar ou rebitar definitivamente, evitando deslocamento acidental sob carga.
- Verificar a estabilidade temporária da estrutura em cada etapa, com atenção redobrada a pilares isolados e vigas principais ainda sem contraventamento.
- Realizar inspeção prévia de acessos, andaimes, plataformas, conexões de içamento e equipamentos de guindar antes de cada turno.
- Isolar fisicamente a área inferior da montagem para prevenir impacto por queda de objetos.
- Garantir treinamento específico em trabalho em altura e procedimento de resgate adequado à geometria real da estrutura.
A estrutura mais perigosa não é a que está pronta, é a que está pela metade.
— Princípio prático de engenharia de montagem
Checklist de conformidade normativa para montagem metálica
Antes de liberar o início da montagem, o engenheiro responsável deve confirmar os seguintes itens de conformidade com NR-18, NR-35 e NBR 8800:2024:
- Responsável técnico habilitado formalmente designado para a montagem, conforme exigência da NR-18.
- PGR da obra atualizado com SPIQ, meios de acesso e análise de risco específica para cada etapa de montagem.
- Pontos de ancoragem e linhas de vida dimensionados para a geometria real de cada fase, conforme NR-35.
- Plano de içamento com verificação de centro de gravidade, capacidade do equipamento e amarração adequada.
- Estabilidade provisória verificada antes de cada etapa de içamento subsequente, especialmente pré-contraventamento.
- Aterramento provisório da estrutura instalado desde o início, quando houver risco de acúmulo de energia estática.
- Recipientes apropriados para ferramentas e fixadores em todos os postos de trabalho em altura.
- Isolamento da área inferior de projeção de queda de materiais.
- Treinamento em trabalho em altura e resgate específico documentado para toda a equipe envolvida.
- Projeto estrutural com verificação das condições transitórias de montagem, não apenas da estrutura em serviço, conforme critérios da NBR 8800:2024.
Empresas que tratam a montagem metálica com o mesmo rigor técnico do projeto estrutural reduzem drasticamente a exposição a acidentes e a passivos trabalhistas. A interseção entre NR-18, NR-35 e NBR 8800:2024 não é burocracia sobreposta: é o conjunto mínimo de exigências para que uma estrutura de aço saia do papel sem colocar em risco quem a monta.
Perguntas frequentes
A partir de qual altura a NR-35 se aplica na montagem de estruturas metálicas?
A NR-35 se aplica a toda atividade com diferença de nível superior a 2,0 m em relação ao plano inferior, sempre que houver risco de queda. Na prática, isso cobre quase toda a operação de montagem, exceto etapas realizadas rente ao solo.
A NR-18 exige engenheiro específico para montagem de estrutura metálica?
Sim. A NR-18 determina que toda montagem, manutenção e desmontagem de estrutura metálica seja de responsabilidade de profissional legalmente habilitado, com respaldo técnico para o plano de montagem e a sequência executiva.
A NBR 8800:2024 trata da segurança na montagem ou apenas do projeto estrutural?
A NBR 8800:2024 é uma norma de projeto, baseada no método dos estados-limite, e não trata diretamente de segurança do trabalho. No entanto, ela deve orientar a verificação das condições transitórias durante a montagem, que integra o plano de segurança regido pela NR-18 e NR-35.
Por que a fase de montagem é mais crítica do que a estrutura concluída?
Porque elementos isolados, ainda sem contraventamento definitivo, podem não ter capacidade de resistir a esforços horizontais de vento ou desalinhamento durante o içamento de peças subsequentes, mesmo que a estrutura final seja plenamente estável.
Fontes e referências
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
Precisa de um plano de montagem estruturalmente seguro e em conformidade com NR-18, NR-35 e NBR 8800? Fale com a equipe técnica da MTA Engenharia.
Resposta técnica e ágil, com ART, sem compromisso. Serviço relacionado: Linhas de Vida e NR-35.




