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Vento em Coberturas no Paraná: o que a NBR 6123 Exige Depois do Vendaval

Eng. Marcelo Ximenez7 min de leitura

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Vento em Coberturas no Paraná: o que a NBR 6123 Exige Depois do Vendaval

Resumo rápido

  • A NBR 6123:2023 exige verificação por zonas de cobertura (centro, borda, canto), não uma pressão média única.
  • A sucção, e não a pressão descendente, costuma ser a ação crítica em telhados de baixa inclinação durante vendavais.
  • Telha arrancada aumenta a pressão interna da edificação e pode desencadear falha progressiva em fixadores e terças vizinhas.

O que aconteceu no Paraná

Segundo o Space Money, tempestades atingiram o centro-sul do Brasil no início de outubro de 2026, com destaque para o Paraná. Em Dois Vizinhos foram registradas rajadas superiores a 110 km/h, que derrubaram árvores, danificaram telhados e interromperam o fornecimento de energia elétrica. São Miguel do Iguaçu também registrou vendaval e queda de granizo na mesma frente de instabilidade.

Imagem ilustrativa: Rio de Janeiro (RJ) 22/03/2024: Temporal atinge o Rio de Janeiro e trabalhadores deixam a região central da cidade, que tem ponto facultativo decretado com previsão de chuvas extremas.
Imagem ilustrativa: Rio de Janeiro (RJ) 22/03/2024: Temporal atinge o Rio de Janeiro e trabalhadores deixam a região central da cidade, que tem ponto facultativo decretado com previsão de chuvas extremas.Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (reprodução autorizada com crédito)

Esse tipo de evento é recorrente no centro-sul do país e expõe, de forma prática, um ponto que muitos projetos ainda tratam de maneira superficial: o dimensionamento da cobertura para vento em coberturas não é um detalhe de acabamento, é verificação estrutural com norma própria, a ABNT NBR 6123:2023, que substituiu a versão de 1988 e trata tanto da estrutura principal quanto de revestimentos, vedações e acessórios.

Por que coberturas falham em vendavais

O erro conceitual mais comum é tratar o vento como carga apenas descendente, análoga a uma sobrecarga de uso. Em telhados de baixa a média inclinação, a ação predominante costuma ser a sucção, força ascendente gerada pela depressão do escoamento sobre a face de barlavento e, principalmente, sobre as zonas de recirculação em cumeeira, beirais e cantos.

Telhas metálicas, cerâmicas e fibrocimento têm massa própria baixa e dependem quase inteiramente da fixação (ganchos, parafusos autoatarrachantes, grampos) para resistir a essa sucção. Quando o fixador cede, seja por corrosão, seja por espaçamento inadequado, a telha é arrancada e o processo se propaga para os elementos vizinhos, que passam a receber carga concentrada que não estava prevista no dimensionamento original.

O que a NBR 6123:2023 exige no cálculo do vento

A norma parte da velocidade característica V_k = V_0 · S_1 · S_2 · S_3, em que V_0 é a velocidade básica obtida no mapa de isopletas, S_1 o fator topográfico, S_2 o fator de rugosidade do terreno combinado com altura e dimensões da edificação, e S_3 o fator estatístico vinculado ao período de retorno e à importância da construção.

A velocidade básica V_0 representa uma rajada de 3 segundos, medida a 10 m de altura, em terreno aberto e plano, com probabilidade de excedência média de uma vez em 50 anos. A partir de V_k, a pressão dinâmica é obtida por q = 0,613 · V_k², com q em N/m² e V_k em m/s. Usar o V_0 de outra cidade, de outro terreno ou uma rajada subestimada é um dos erros de projeto mais frequentes e mais difíceis de identificar depois de pronto.

Pressão interna, sucção e coeficientes de forma

A força resultante sobre um elemento de cobertura é dada por F = (Ce − Ci) · q · A, em que Ce é o coeficiente de pressão externa e Ci o coeficiente de pressão interna. A norma exige a avaliação separada de sucção e pressão sobre as duas águas, vento perpendicular e oblíquo à cumeeira, e tratamento diferenciado para bordas, beirais, cantos e regiões próximas às extremidades. Não é válido aplicar uma pressão média para todo o telhado: as zonas de canto e borda recebem ações sensivelmente mais severas que o centro da água.

Zona de canto de cobertura metálica: região mais sensível à sucção do vento.
Zona de canto de cobertura metálica: região mais sensível à sucção do vento.

Para elementos de vedação, a NBR 6123:2023 indica, em situações específicas, a consideração de c_p = ±2,0, valor que não deve ser aplicado de forma genérica. É preciso checar a geometria do telhado, a posição exata do elemento (canto, borda, centro) e as condições locais antes de adotar esse coeficiente.

Um ponto frequentemente negligenciado é a pressão interna. Quando uma telha é arrancada, uma porta se abre ou um lanternim quebra, a edificação passa a se comportar como construção parcialmente aberta, e a pressão interna aumenta substancialmente a sucção sobre o restante da cobertura. Por isso, um telhado que perdeu peças durante o vendaval precisa ser reavaliado não como ele era antes do evento, mas como ele está agora, com abertura.

A pressão interna pode aumentar significativamente a sucção sobre a cobertura quando há grandes aberturas ou ruptura de elementos de vedação.

— ABNT NBR 6123:2023

Cadeia resistente: o que verificar na estrutura

A inspeção de um telhado danificado não termina na troca de telhas quebradas. A NBR 6123 define a ação do vento, mas quem resiste a essa ação é a cadeia estrutural completa, e cada elo precisa ser checado individualmente.

  • telhas, painéis e sistemas de vedação
  • ganchos, parafusos, grampos e arruelas de fixação
  • terças e seus apoios
  • caibros e ripas, em sistemas de madeira
  • tesouras, treliças e pórticos da estrutura principal
  • sistemas de contraventamento
  • ligações da cobertura com paredes, vigas e pilares
  • ancoragens e chumbadores na base dos pilares

Para estruturas metálicas, o dimensionamento desses elementos segue a ABNT NBR 8800, aplicável a estruturas de aço e mistas de aço e concreto, incluindo perfis de cobertura, terças e ligações parafusadas ou soldadas. Estruturas de madeira seguem a NBR 7190, estruturas de concreto a NBR 6118, e as combinações de ações e estados-limites são tratados pela NBR 8681. A NBR 6123 entrega a carga de vento; quem verifica resistência, estabilidade e deslocamento é o conjunto dessas normas de material.

Sinais de risco: checklist pós-vendaval

Antes de qualquer reparo, vale percorrer a cobertura (de forma segura, sem acesso direto quando há risco) observando os pontos que mais costumam falhar em eventos como o de Dois Vizinhos e São Miguel do Iguaçu.

  • fixação insuficiente ou incompatível com o tipo de telha instalado
  • parafusos frouxos, corroídos, sem arruela adequada ou fora da posição recomendada pelo fabricante
  • ausência de reforço de fixação em cantos, beirais e bordas
  • contraventamento visivelmente deformado ou ausente
  • ligações entre cobertura e estrutura principal com folga ou corrosão
  • terças, perfis e chapas com corrosão avançada
  • madeira deteriorada, fissurada ou com ligações comprometidas
  • ampliação de área fechada (platibandas, painéis, fechamentos) sem nova verificação estrutural
  • reparo localizado anterior sem avaliação de danos ocultos ou deformação permanente

O arrancamento de uma única telha pode iniciar uma falha progressiva: a abertura aumenta a pressão interna, eleva a sucção sobre as peças vizinhas e sobrecarrega fixações que já trabalhavam próximas ao limite. Esse efeito em cadeia é o motivo pelo qual inspeções pontuais, sem olhar o sistema como um todo, costumam deixar passar o dano mais relevante.

Procedimento recomendado após o vendaval

Em empresas e galpões atingidos por rajadas como as registradas no Paraná, a sequência de ações importa tanto quanto o diagnóstico final.

Inspeção técnica pós-vendaval: levantamento de danos antes do reparo definitivo.
Inspeção técnica pós-vendaval: levantamento de danos antes do reparo definitivo.
  1. Isolar a área sob partes deformadas, soltas ou com risco de queda, incluindo acessos e estacionamento.
  2. Não acessar a cobertura sem avaliação prévia de segurança, especialmente com telhas quebradas, estrutura metálica deformada ou madeira molhada.
  3. Registrar fotografias da direção aparente dos danos, telhas arrancadas, deformações, corrosão e pontos de infiltração.
  4. Solicitar inspeção por profissional habilitado, com emissão de ART para qualquer avaliação, projeto ou reparo de responsabilidade técnica.
  5. Levantar geometria, inclinação, vãos, espaçamentos, tipo de telha, sistema de fixação e condições do entorno (obstruções, edificações vizinhas).
  6. Recalcular as ações de vento considerando a condição atual da edificação, incluindo eventual abertura que altere a pressão interna, antes de autorizar o uso normal da área.

Como prevenir falhas estruturais em futuros vendavais

Prevenção, nesse caso, é menos sobre reforçar tudo e mais sobre verificar o que já existe contra a norma vigente. Projetos antigos, calculados ainda sob a NBR 6123:1988, podem não refletir os coeficientes e procedimentos da versão de 2023, especialmente em zonas de borda e canto. Vale revisar periodicamente o sistema de fixação de telhas, inspecionar corrosão em terças e parafusos a cada ciclo de manutenção, e manter registro técnico de qualquer reforma que altere a área fechada da edificação, já que isso muda a pressão interna de projeto.

Para edificações em regiões historicamente sujeitas a vendavais, como boa parte do centro-sul do país, compensa tratar a inspeção pós-tempestade como rotina, não como exceção: um levantamento rápido de fixadores e ligações após cada evento severo custa muito menos do que uma falha progressiva não identificada a tempo.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes

A NBR 6123 se aplica a qualquer tipo de cobertura?

Sim. A norma cobre coberturas de uma água, duas águas, múltiplas águas, curvas e isoladas, variando os coeficientes de pressão conforme inclinação, dimensões em planta, altura e direção do vento.

Por que a sucção é mais crítica que a pressão descendente?

Em telhados de baixa a média inclinação, o escoamento do ar gera depressão sobre a face superior, criando uma força ascendente que tende a arrancar telhas e sobrecarregar fixadores, diferente de uma carga de uso que atua para baixo.

Depois que o telhado perde telhas, ele continua sendo calculado como estava no projeto original?

Não. A abertura altera a pressão interna da edificação, o que normalmente aumenta a sucção sobre a cobertura remanescente. A reavaliação deve considerar a condição real após o dano, não o projeto original fechado.

Trocar as telhas danificadas já resolve o problema?

Não necessariamente. É preciso verificar toda a cadeia resistente, fixadores, terças, contraventamento, ligações e ancoragens, além de checar corrosão e deformações permanentes que a substituição isolada de telhas não revela.

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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