Neste artigo
- O que aconteceu no Paraná
- Por que coberturas falham em vendavais
- O que a NBR 6123:2023 exige no cálculo do vento
- Pressão interna, sucção e coeficientes de forma
- Cadeia resistente: o que verificar na estrutura
- Sinais de risco: checklist pós-vendaval
- Procedimento recomendado após o vendaval
- Como prevenir falhas estruturais em futuros vendavais
- Perguntas frequentes
Resumo rápido
- A NBR 6123:2023 exige verificação por zonas de cobertura (centro, borda, canto), não uma pressão média única.
- A sucção, e não a pressão descendente, costuma ser a ação crítica em telhados de baixa inclinação durante vendavais.
- Telha arrancada aumenta a pressão interna da edificação e pode desencadear falha progressiva em fixadores e terças vizinhas.
O que aconteceu no Paraná
Segundo o Space Money, tempestades atingiram o centro-sul do Brasil no início de outubro de 2026, com destaque para o Paraná. Em Dois Vizinhos foram registradas rajadas superiores a 110 km/h, que derrubaram árvores, danificaram telhados e interromperam o fornecimento de energia elétrica. São Miguel do Iguaçu também registrou vendaval e queda de granizo na mesma frente de instabilidade.

Esse tipo de evento é recorrente no centro-sul do país e expõe, de forma prática, um ponto que muitos projetos ainda tratam de maneira superficial: o dimensionamento da cobertura para vento em coberturas não é um detalhe de acabamento, é verificação estrutural com norma própria, a ABNT NBR 6123:2023, que substituiu a versão de 1988 e trata tanto da estrutura principal quanto de revestimentos, vedações e acessórios.
Por que coberturas falham em vendavais
O erro conceitual mais comum é tratar o vento como carga apenas descendente, análoga a uma sobrecarga de uso. Em telhados de baixa a média inclinação, a ação predominante costuma ser a sucção, força ascendente gerada pela depressão do escoamento sobre a face de barlavento e, principalmente, sobre as zonas de recirculação em cumeeira, beirais e cantos.
Telhas metálicas, cerâmicas e fibrocimento têm massa própria baixa e dependem quase inteiramente da fixação (ganchos, parafusos autoatarrachantes, grampos) para resistir a essa sucção. Quando o fixador cede, seja por corrosão, seja por espaçamento inadequado, a telha é arrancada e o processo se propaga para os elementos vizinhos, que passam a receber carga concentrada que não estava prevista no dimensionamento original.
O que a NBR 6123:2023 exige no cálculo do vento
A norma parte da velocidade característica V_k = V_0 · S_1 · S_2 · S_3, em que V_0 é a velocidade básica obtida no mapa de isopletas, S_1 o fator topográfico, S_2 o fator de rugosidade do terreno combinado com altura e dimensões da edificação, e S_3 o fator estatístico vinculado ao período de retorno e à importância da construção.
A velocidade básica V_0 representa uma rajada de 3 segundos, medida a 10 m de altura, em terreno aberto e plano, com probabilidade de excedência média de uma vez em 50 anos. A partir de V_k, a pressão dinâmica é obtida por q = 0,613 · V_k², com q em N/m² e V_k em m/s. Usar o V_0 de outra cidade, de outro terreno ou uma rajada subestimada é um dos erros de projeto mais frequentes e mais difíceis de identificar depois de pronto.
Pressão interna, sucção e coeficientes de forma
A força resultante sobre um elemento de cobertura é dada por F = (Ce − Ci) · q · A, em que Ce é o coeficiente de pressão externa e Ci o coeficiente de pressão interna. A norma exige a avaliação separada de sucção e pressão sobre as duas águas, vento perpendicular e oblíquo à cumeeira, e tratamento diferenciado para bordas, beirais, cantos e regiões próximas às extremidades. Não é válido aplicar uma pressão média para todo o telhado: as zonas de canto e borda recebem ações sensivelmente mais severas que o centro da água.

Para elementos de vedação, a NBR 6123:2023 indica, em situações específicas, a consideração de c_p = ±2,0, valor que não deve ser aplicado de forma genérica. É preciso checar a geometria do telhado, a posição exata do elemento (canto, borda, centro) e as condições locais antes de adotar esse coeficiente.
Um ponto frequentemente negligenciado é a pressão interna. Quando uma telha é arrancada, uma porta se abre ou um lanternim quebra, a edificação passa a se comportar como construção parcialmente aberta, e a pressão interna aumenta substancialmente a sucção sobre o restante da cobertura. Por isso, um telhado que perdeu peças durante o vendaval precisa ser reavaliado não como ele era antes do evento, mas como ele está agora, com abertura.
A pressão interna pode aumentar significativamente a sucção sobre a cobertura quando há grandes aberturas ou ruptura de elementos de vedação.
— ABNT NBR 6123:2023
Cadeia resistente: o que verificar na estrutura
A inspeção de um telhado danificado não termina na troca de telhas quebradas. A NBR 6123 define a ação do vento, mas quem resiste a essa ação é a cadeia estrutural completa, e cada elo precisa ser checado individualmente.
- telhas, painéis e sistemas de vedação
- ganchos, parafusos, grampos e arruelas de fixação
- terças e seus apoios
- caibros e ripas, em sistemas de madeira
- tesouras, treliças e pórticos da estrutura principal
- sistemas de contraventamento
- ligações da cobertura com paredes, vigas e pilares
- ancoragens e chumbadores na base dos pilares
Para estruturas metálicas, o dimensionamento desses elementos segue a ABNT NBR 8800, aplicável a estruturas de aço e mistas de aço e concreto, incluindo perfis de cobertura, terças e ligações parafusadas ou soldadas. Estruturas de madeira seguem a NBR 7190, estruturas de concreto a NBR 6118, e as combinações de ações e estados-limites são tratados pela NBR 8681. A NBR 6123 entrega a carga de vento; quem verifica resistência, estabilidade e deslocamento é o conjunto dessas normas de material.
Sinais de risco: checklist pós-vendaval
Antes de qualquer reparo, vale percorrer a cobertura (de forma segura, sem acesso direto quando há risco) observando os pontos que mais costumam falhar em eventos como o de Dois Vizinhos e São Miguel do Iguaçu.
- fixação insuficiente ou incompatível com o tipo de telha instalado
- parafusos frouxos, corroídos, sem arruela adequada ou fora da posição recomendada pelo fabricante
- ausência de reforço de fixação em cantos, beirais e bordas
- contraventamento visivelmente deformado ou ausente
- ligações entre cobertura e estrutura principal com folga ou corrosão
- terças, perfis e chapas com corrosão avançada
- madeira deteriorada, fissurada ou com ligações comprometidas
- ampliação de área fechada (platibandas, painéis, fechamentos) sem nova verificação estrutural
- reparo localizado anterior sem avaliação de danos ocultos ou deformação permanente
O arrancamento de uma única telha pode iniciar uma falha progressiva: a abertura aumenta a pressão interna, eleva a sucção sobre as peças vizinhas e sobrecarrega fixações que já trabalhavam próximas ao limite. Esse efeito em cadeia é o motivo pelo qual inspeções pontuais, sem olhar o sistema como um todo, costumam deixar passar o dano mais relevante.
Procedimento recomendado após o vendaval
Em empresas e galpões atingidos por rajadas como as registradas no Paraná, a sequência de ações importa tanto quanto o diagnóstico final.

- Isolar a área sob partes deformadas, soltas ou com risco de queda, incluindo acessos e estacionamento.
- Não acessar a cobertura sem avaliação prévia de segurança, especialmente com telhas quebradas, estrutura metálica deformada ou madeira molhada.
- Registrar fotografias da direção aparente dos danos, telhas arrancadas, deformações, corrosão e pontos de infiltração.
- Solicitar inspeção por profissional habilitado, com emissão de ART para qualquer avaliação, projeto ou reparo de responsabilidade técnica.
- Levantar geometria, inclinação, vãos, espaçamentos, tipo de telha, sistema de fixação e condições do entorno (obstruções, edificações vizinhas).
- Recalcular as ações de vento considerando a condição atual da edificação, incluindo eventual abertura que altere a pressão interna, antes de autorizar o uso normal da área.
Como prevenir falhas estruturais em futuros vendavais
Prevenção, nesse caso, é menos sobre reforçar tudo e mais sobre verificar o que já existe contra a norma vigente. Projetos antigos, calculados ainda sob a NBR 6123:1988, podem não refletir os coeficientes e procedimentos da versão de 2023, especialmente em zonas de borda e canto. Vale revisar periodicamente o sistema de fixação de telhas, inspecionar corrosão em terças e parafusos a cada ciclo de manutenção, e manter registro técnico de qualquer reforma que altere a área fechada da edificação, já que isso muda a pressão interna de projeto.
Para edificações em regiões historicamente sujeitas a vendavais, como boa parte do centro-sul do país, compensa tratar a inspeção pós-tempestade como rotina, não como exceção: um levantamento rápido de fixadores e ligações após cada evento severo custa muito menos do que uma falha progressiva não identificada a tempo.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes
A NBR 6123 se aplica a qualquer tipo de cobertura?
Sim. A norma cobre coberturas de uma água, duas águas, múltiplas águas, curvas e isoladas, variando os coeficientes de pressão conforme inclinação, dimensões em planta, altura e direção do vento.
Por que a sucção é mais crítica que a pressão descendente?
Em telhados de baixa a média inclinação, o escoamento do ar gera depressão sobre a face superior, criando uma força ascendente que tende a arrancar telhas e sobrecarregar fixadores, diferente de uma carga de uso que atua para baixo.
Depois que o telhado perde telhas, ele continua sendo calculado como estava no projeto original?
Não. A abertura altera a pressão interna da edificação, o que normalmente aumenta a sucção sobre a cobertura remanescente. A reavaliação deve considerar a condição real após o dano, não o projeto original fechado.
Trocar as telhas danificadas já resolve o problema?
Não necessariamente. É preciso verificar toda a cadeia resistente, fixadores, terças, contraventamento, ligações e ancoragens, além de checar corrosão e deformações permanentes que a substituição isolada de telhas não revela.
Fontes e referências
Eng. Marcelo Ximenez
Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D
Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.
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