Segurança (NRs)

Ponto de Ancoragem NR 35: Quanto Deve Resistir e Quem Pode Projetar?

Eng. Marcelo Ximenez4 min de leitura
Ponto de Ancoragem NR 35: Quanto Deve Resistir e Quem Pode Projetar?

Resumo rápido

  • O ponto de ancoragem NR 35 deve resistir a no mínimo 15 kN (1 usuário) ou 22 kN (2 usuários), sem deformação permanente.
  • A força de impacto transmitida ao ponto não pode ultrapassar 6 kN, com fator de segurança mínimo de 2,0 (NBR 16325).
  • Somente engenheiro civil/estrutural com registro no CREA pode projetar, calcular e emitir ART e Laudo de Carga do ponto de ancoragem.

Muita gente acredita que qualquer olhal soldado ou cabo amarrado em uma viga serve como ponto de ancoragem NR 35. Esse é um dos erros mais graves, e mais comuns, em obras e manutenções industriais no Brasil. A norma não trata de improviso: exige cálculo estrutural, resistência mínima comprovada e responsabilidade técnica formal de um engenheiro habilitado.

Neste artigo, a MTA Engenharia detalha os valores exatos de resistência exigidos, as normas ABNT que fundamentam o dimensionamento e quem pode, legalmente, assinar esse tipo de projeto.

Quanto deve resistir o ponto de ancoragem NR 35?

De acordo com o Anexo II da NR 35, o ponto de ancoragem deve suportar, sem deformação permanente, uma força mínima que varia conforme o número de usuários conectados simultaneamente.

  • 1 trabalhador: força mínima de 15 kN (1.500 kgf)
  • 2 trabalhadores simultâneos: força mínima de 22 kN (2.200 kgf)
  • Fator de segurança mínimo: 2,0 (conforme NBR 16325)
  • Força de impacto (frenagem) limitada a 6 kN (600 kgf)

É importante entender que essa exigência não se refere ao peso estático da pessoa, mas à energia gerada em uma queda real, que pode multiplicar a carga aplicada sobre a estrutura em frações de segundo. Por isso, o dimensionamento correto do ponto de ancoragem NR 35 depende de cálculo de engenharia, e não de estimativa visual.

Normas ABNT que fundamentam o cálculo

A NR 35 estabelece o requisito legal, mas o dimensionamento técnico do ponto e da estrutura de fixação segue normas específicas da ABNT:

  • NR 35 (Anexo II): define a força mínima de 15 kN por usuário e exige projeto por profissional habilitado
  • NBR 16325: critérios de ensaio, seleção, instalação e manutenção de sistemas de ancoragem, com limite de força de impacto de 6 kN
  • NBR 8800: cálculo da resistência de estruturas metálicas (vigas e colunas de aço) onde o ponto será fixado
  • NBR 6118: aplicável quando a ancoragem é fixada em concreto armado (vigas, pilares, lajes)
  • BS 7883:2005: referência internacional complementar para critérios de projeto

A combinação dessas normas garante que o cálculo não avalie apenas o dispositivo de ancoragem em si, mas também a capacidade real da estrutura existente de absorver a carga sem falhar.

Quem pode projetar o ponto de ancoragem?

A NR 35 é explícita: o projeto, a instalação e a inspeção de pontos de ancoragem devem ser conduzidos exclusivamente por profissional legalmente habilitado, com registro ativo no CREA, em geral, engenheiro civil ou estrutural com competência comprovada em análise de cargas.

Esse profissional é responsável por emitir um conjunto de documentos técnicos obrigatórios:

  1. Projeto técnico detalhado do ponto e da estrutura de fixação
  2. ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) registrada no CREA
  3. Laudo de Carga com a resistência calculada da estrutura
  4. Manual de Uso com instruções de operação e limites do sistema

Riscos comuns na instalação de pontos de ancoragem

Mesmo em empresas com boas intenções, alguns erros recorrentes comprometem a segurança do sistema:

  • Fator de queda elevado: ancoragem abaixo do nível do talabarte aumenta a força de impacto; o ideal é o ponto na altura do ombro ou acima
  • Fixação em elementos não estruturais: alvenaria não estrutural, tubulações e conduítes não suportam a carga exigida
  • Corrosão e falta de inspeção: pontos com ferrugem, folga ou trincas devem ser substituídos imediatamente
  • Documentação incompleta: ausência de identificação e manual de uso impede rastreabilidade e manutenção correta

Conclusão técnica

O dimensionamento de um ponto de ancoragem NR 35 não pode se basear apenas no peso do trabalhador. É necessário considerar a força de impacto máxima de 6 kN, aplicar o fator de segurança de 2,0 e garantir a carga de ruptura de 15 kN, integrando o cálculo às normas de concreto (NBR 6118) ou aço (NBR 8800) conforme o substrato. A responsabilidade técnica é integral do engenheiro projetista, e não pode ser transferida para equipes de instalação sem formação em engenharia estrutural.

Um ponto de ancoragem sem projeto de engenharia não protege ninguém

apenas transfere o risco para o momento em que ele for realmente testado por uma queda.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ponto de ancoragem e linha de vida?

O ponto de ancoragem é um elemento fixo e pontual de fixação individual, enquanto a linha de vida é um sistema horizontal ou vertical que permite deslocamento contínuo do trabalhador conectado a múltiplos pontos.

Toda estrutura pode receber um ponto de ancoragem?

Não. A fixação deve ocorrer em elementos estruturais capazes de resistir à carga calculada: vigas de aço, concreto armado ou alvenaria estrutural. Elementos não estruturais, como tubulações e alvenarias de vedação, são proibidos como base de ancoragem.

Com que frequência o ponto de ancoragem deve ser inspecionado?

A inspeção visual e mecânica deve ocorrer antes de cada uso, além de inspeções periódicas realizadas por profissional competente, conforme cronograma definido no manual de uso e no PGR da empresa.

É obrigatório ter ART para instalação de ponto de ancoragem?

Sim. A ART é obrigatória, pois comprova a responsabilidade técnica do engenheiro pelo cálculo, projeto e laudo de carga da estrutura. A ausência de ART configura instalação irregular e sem respaldo legal.

MX

Eng. Marcelo Ximenez

Engenheiro Mecânico · CREA-PR 184487/D

Responsável técnico da MTA Engenharia, especialista em estruturas metálicas e projetos de grande porte. Já assinou mais de 500 projetos com ART e dimensionou 15 mil toneladas de aço em obras por mais de 15 estados.

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